Cá pra nós (Elisiê Peixoto)
Arquivo FolhaDepois de levar respostas atravessadas durante boa parte da vida, resolvi finalmente aderir de fio a pavio ao ditado mais certo que existe: Quem fala o que não deve, ouve o que não quer. E é assim mesmo, gente que solta a língua a hora em que bem quer e se vê no direito de falar tudo o que vem à cabeça, merece ouvir aquilo que a maioria dos amigos e conhecidos, às vezes, não tem coragem de dizer.
Eu mesma já falei em exagero em diversas situações e para as pessoas erradas. Você pode até achar que não-tem-nada-de-mais falar tudo o que lhe vem à cabeça, ser sincera acima de qualquer coisa, não engolir desaforo. Mas tem. Porque cada pessoa é diferente da outra. Às vezes basta uma única frase, curta, seca e verdadeira para melindrar uma pessoa que a gente gosta tanto. E daí que a resposta vem certeira como um tiro no meio da testa, deixando a gente com aquela cara de mamão macho e com a sensação de bem feito, falei demais.
Existem vários tipos de pessoas que falam além do que devem. Tem gente que resolve contar as desgraças da vida na calçada, fazer confidências debaixo de um sol que ferve o miolo e na hora do almoço. Mesmo porque desgraça é sempre o prato principal do dito cujo em questão.
Têm outras pessoas que são hors-concours em foras homéricos. Eu mesma - por falar demais -, já dei cada uma de doer a alma. Mas esta fase já acabou. Depois de tantas chapuletadas merecidas.
Também tem gente que simplesmente não pensa para falar. Vai soltando o verbo, falando aquele monte de abobrinha e chuchu, enquanto você olha assustada e entra em delírio com tanta alugação. Normalmente, a pessoa é indiscreta e se faz de tonta, quando na verdade é uma raposa.
Gente grossa também fala por ela e pelos outros. Então, é regra: existem grossuras que merecem resposta à altura. Não se intimide e dê um basta logo de cara, antes de aturar falta de educação.
Mas de todos aqueles que falam acima da dose, tem um tipo que eu considero o pior de todos. Quem ainda não esbarrou com um professor de Deus? Normalmente sabem muito pouco de tudo, mas adoram dar pinta de inteligentes, são deslumbrados, falam pelos cotovelos e julgam estar abafando. Gente chatérrima que merece ficar de escanteio em qualquer situação.
Certa vez viajei com uma louca do gênero. Durante duas horas initerruptas ela falou uma pá de baboseiras enquanto eu fingia estar dormindo, lendo jornal, em estado catatônico. Que nada, a mulher falou tanto, que precisei deixar as boas maneiras de lado e pedir para ela sossegar o facho.
Cruzes, como tem gente que é infeliz cada vez que abre a matraca. Não domina o assunto em questão e resolve dar seu parecer. Aí é um festival de burrice. Eu não pago um mico desses. Se não sei nadinha de nada sobre o que está sendo debatido, selo minha boca, emudeço, finjo não ser desta vida. Mas não faço de penico o ouvido dos outros.
Também tem uns e outros que exageram na dose de sinceridade. Começam a falar, se empolgam e, de repente, começam a descrever suas melhores performances na cama, com quem foi e onde. Aí é que pinta a baixaria. É nestas horas que o tagarela vira alvo de um bom puxão de orelha e passa o resto do dia arrependido da grossura em questão.
E têm os fofoqueiros de plantão. Que simplesmente a-do-ram uma fofoca, de preferência daquelas parecidas com torpedo, que arrasam com a pessoa em questão. Gente linguaruda aumenta um, dois, três pontos em cada história. Mal esbarram em você e estão com uma fofoca quente e afiada na ponta da língua. Um horror.
Benza Deus, como é boa a companhia de uma pessoa que fala na dose certa, respeita sua opinião, que dá a você a atenção devida, não fica só no eu sou, eu fiz, eu aconteci. Gente assim é a companhia adequada numa viagem em alto-mar, numa reunião íntima, no ambiente de trabalho, numa boate, numa roda de amigos, pelo resto da vida.
Costumo dizer que estas pessoas são as mais inteligentes porque estão sempre livres de alcoviteiros, são descomplicadas, têm boas maneiras e amigos fiéis. Quer saber? Gente que sabe ouvir, fala no momento certo e impõe respeito - e também uma discreta distância - é, acima de tudo, muito chic.





