Cá pra Nós (Elisiê Peixoto)
Arquivo/FolhaCostumo dizer que viajar é uma das melhores coisas da vida. E, para mim, tanto faz uma esticada rápida para um lugar sem maiores atrativos, como para um local badalado daqueles que você vai com o espírito preparado: a fim de saracotear de manhã até a noite. Viajar é um dos poucos bens que fazemos a nós mesmos. Descansa a alma, dá cultura e deixa lembranças que ninguém apaga.
Já viajei para cada lugar que nem eu acredito. Mas sou curiosa demais e a vontade de respirar outros ares me dá aquela coceirinha nos pés e a vontade, novamente, de afivelar as malas. Além disso, quando eu viajo consigo algo que me é praticamente impossível no dia-a-dia: desligar do balacobaco que ferve o ano inteiro.
Então, vez ou outra, preciso dar uma fugida. Nem que ela signifique pegar a estrada rumo ao sítio de uma amiga, ficar lá contando borboleta e jogando conversa fora com o caseiro. Programa danado, mas que resulta num retorno tranquilo com tudo nos trinques e pronta para o batente.
Acostumada a viajar sozinha ou com a minha dupla, recentemente descobri o prazer de ter outras companhias numa viagem. Meio ressabiada, decolei dias atrás para uma temporada de férias com um grupo que pouco conhecia. E acabei dividindo o quarto com duas adolescentes. A princípio pensei que aqueles dias serviriam de exercício para a paciência mas, que nada, foi mesmo um grande barato.
Em meio à bagunça generalizada do quarto, dos telefonemas no meio da noite recheados de declarações de amor para os namorados, em meio ao enxame de sacolas de compras espalhadas pela cama, acabei fazendo o que o bom senso ditou. Entrei na delas, com a nítida sensação de que já vi este filme. Aos 19 anos eu era exatamente igual a estas duas gracinhas que dividiram comigo suas experiências, seus xampus e alguns segredos.
Toda vez que viajo para algum lugar tento extrair daqueles dias o que há de melhor. Coloco o lado down em banho-maria e não deixo qualquer coisa tirar meu ânimo. Às vezes, o hotel não é aquela maravilha, o avião chacoalha mais que coqueteleira, a cidade é um caos, o dinheiro está curto, a previsão errada da temperatura te pega de calça curta. Mesmo assim, tudo vale a pena quando a ordem é passear. Não esquento a moringa por pouca coisa quando estou do outro lado do Atlântico. Então, dividir o quarto com dois brotos, com os quais não tinha a menor intimidade, foi mais fácil que vender água no deserto. Tirei de letra. E, ao final da viagem, um grande abraço selou a amizade.
Pegar o avião de volta sem encomendas, não pagar excesso de bagagem, desistir das duas sacolas de mão, ter só uma bolsinha pendurada no corpo, é dádiva de Deus. Aprendi. Encomendas, só da mãe e dos filhos. E, no máximo, um batonzinho, um creme, ou brinquedos que se acomodam perfeitamente na mala. Nesta história de encomendas feitas por amigos e parentes já perdi alguns dias nas férias correndo baratinada atrás de disquete para computador, raquete de tênis, aparelho de telefone celular, sutiã wonderbra, calcinha com sabor, livro com a biografia da princesa Diana. Never more.
Mesmo gostando tanto de viajar, há um tempo limite para ficar fora de casa. E o meu se resume a dez dias. Viajar é bom, mas voltar para casa é ainda melhor. Porque a gente retorna reciclada, leve, de bem com a vida. Até desfazer as malas dá prazer. Em casa, a tranquilidade vira um estado de espírito. Pena que seja apenas por uma semana. Porque depois a coisa toda volta a ferver mais que chaleira. Comigo é sempre assim.





