Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Não sei se li ou ouvi alguém dizer que numa segunda tentativa amorosa, as chances se multiplicam por mil. Acho que memorizei isso porque estou sempre cercada por pessoas que vivem essa situação. Gente da minha família, amigas e amigos muito chegados que, depois de um casamento acabado, se reestruturam, colocam a casa em ordem, agem mais impulsionados pela razão do que pela emoção e vão muito bem obrigado.
Ninguém se casa pensando em separação. Mas as separações acontecem aos montes e, muitas vezes, são inevitáveis. E de nada adianta esconder a cara - e a situação - feito avestruz. Acho que uma boa parte dos casais acaba empurrando o dia-a-dia com a barriga, acomodada naquele quadro bem pintado e que retrata um casal numa pseudo-harmonia. Felicidade total numa relação é ficção científica. Qualquer um sabe disso. É por causa disso que tenho a plena convicção que, numa relação a dois, além do amor incondicional, deve-se ter paz ao lado de quem divide o mesmo edredom.
Qualquer separação, por mais necessária que ela seja, dói. Mas também, ser infeliz pelo resto da vida? Chutar o balde e escolher uma nova vida é muito melhor do que derramar açudes e mais açudes de lágrimas anos a fio. Separação não é só uma questão de opção de vida, é também uma atitude de muita coragem.
Eu fujo de pessoas que passam a vida questionando o casamento, reclamando da cara-metade e que não fazem nada. Ficam acomodadas na situação financeira e naquele contexto social cheio de tabus. A gente casa para ser feliz, para ter uma pessoa ao lado, faça sol ou faça chuva. E se isso não é possível, ficar junto para que e por quê?
Todas as pessoas com as quais eu convivo e que estão no segundo casamento, ou mesmo que vivem uma nova relação - guardadas as devidas proporções - vivem um momento pleno. Minhas amigas separadas estão mais bonitas e felizes. Já esfriaram a raiva, afastaram a melancolia, estão mais motivadas e vivem um aprendizado de bem-estar. É aquela coisa: ninguém quer errar de novo, então fica mais fácil acertar. Não existe nada pior num casamento do que viver pisando em ovos para não desagradar o marido ou a mulher. E tem casal que passa o resto da vida fazendo isto: engolindo um sapo atrás do outro. Cruzes!
Não sou contra o casamento. Mas também não me conformo facilmente com o estado das coisas. Nunca deixo pra lá quando o balacobaco envolve o que eu mais prezo: a minha felicidade. Meu estado de espírito tem que sempre estar em paz. Caso contrário sou incapaz de passar o dia com qualquer emoção entalada na garganta.
De uma separação se extrai dor e a melhor das melhores lições de vida: é mais fácil achar uma agulha num palheiro do que dividir a mesma toca.
Não sou expert em nada. Muito menos em relacionamentos. Mas descrevo aquilo que vejo diariamente e que é escancarado, mesmo quando uns e outros dizem que não. Num casamento, qualquer coisa é melhor que a indiferença e o pouco caso.
Ter a vida pela frente e tirar dela o que existe de bom deveria ser o lema de todo mundo. Ser infeliz num casamento ficou tão fora de moda que ninguém precisa passar por isso. A dor de uma separação, por mais intensa que seja, é temporária. E não se deve perder tempo ruminando rancores, mágoas de tantos anos, relembrando aquilo que não tem volta. É bola pra frente, mesmo. Xô melancolia!
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