Tenho tão poucos amigos que se eu contar, não somam os dedos de uma mão. Amigos. Porque conhecidos eu tenho uma imensidão deles. São tantos que chego a trocar nomes e confundir fisionomias. Sempre fui de poucos amigos, por uma questão de opção, mesmo. E hoje sei, com toda certeza do mundo, quem são eles. As boas amizades são sagradas e devem ser respeitadas acima de qualquer coisa. Não importa em qual situação você esteja, em qual lugar seu pára-quedas aterrissou. Na hora em que a vaca vai pro brejo, só mesmo um ombro amigo para confortar.
Acho até que, na maioria das vezes, há mais afinidade com um amigo distante, do que com alguém com o qual convivemos diariamente.
Um amigo de verdade não mede distância, não pensa duas vezes, é leal acima de qualquer coisa, tem ética e sabe escutar. Como numa daquelas horinhas em que você não quer nada com nada, está mais é a fim de que o dia passe rápido porque a coisa pegou pesado no trabalho e sua amiga resolve desabafar no meio da madrugada, falando sem ponto e sem vírgula, a fim de escutar de você tudo aquilo que ela sabe de cor e salteado. É regra das amizades verdadeiras ouvir, confortar e segurar a mão. Que seja às três da matina de uma segunda-feira. Não importa. Já me vi no meio da sala, de madrugada, plantada no sofá com o telefone na mão e armando casinha com palito de fósforo enquanto uma grande amiga descarregava toda a amargura do dia. Acredite, amanhã pode ser a sua vez de requisitar um amigo para desafogar o balacobaco.
Ter respeito pela maneira da outra pessoa ser, também é regra num relacionamento de amigos. Ninguém muda neste mundo. A pessoa pode até fazer algumas concessões, mas mudar o temperamento e a forma com a qual encara a vida é pura ilusão. Então, tentar mudar um amigo é chover no molhado. A gente deve gostar da pessoa como ela é, simplesmente. É feio conviver com alguém e sair falando que o gênio dela é uma desgraça. Melhor deixar quieto ou se afastar.
Aquele seu amigo até pode ser um genioso de carteirinha, dono da verdade, professor de Deus. Mais vai te acolher naquela hora danada e ficar ao seu lado nos momentos de sucesso e de fracasso.
E quem não consegue manter uma boa amizade? Fico imaginando aquelas pessoas sempre tão críticas, que falam mal de Deus e do mundo, que se julgam tão superiores, tão intocáveis e que fogem de qualquer situação quando precisam se expor um pouco mais. Ninguém suporta conviver muito tempo com uma criatura destas, que na hora do bem bom te mela, mas na hora em que a porca torce o rabicó, cisca feito um raio. Já cruzei com muita gente assim na minha vida. Cruzes!
É fato. Mulher separa do marido, marido separa da mulher, namoros são desfeitos, mas quem consegue dispensar uma boa amizade? E como sobreviver sem ela? É tão importante ter uma confidente, não importa cor, preferência sexual, partido ou religião. Uma boa amiga, um bom amigo, está acima de tudo isso. Respeitar a intimidade de um amigo também está no meu manual de boa amizade. Uma amiga não tem qualquer obrigação de mostrar o extrato bancário ou contar a quantas anda a perfomance sexual dela. Revelar um segredo naquela hora de deprê total ou contar uma novidade boa quando o coração parece saltar pela boca é uma coisa. Um amigo de verdade não tem que ficar esmiuçando a vida de ninguém como se fosse a própria vida dele. Coisa mais feia é ficar tentando arrancar de uma pessoa aquilo que só pertence a ela. Muita gente aproveita da total falta de estima de um colega para sugar aquilo que ela tem de mais íntegro. Sua privacidade, sua intimidade.
Também baixar na casa do seu melhor amigo e fazer do château dele a sua praia é o fim da picada. Eu me lembrei disso porque no tempo de colégio, minha melhor amiga - que casou, descasou, virou zen e mora em Marrocos - adorava chegar na minha casa pela porta dos fundos e matar de susto qualquer criatura que estivesse na cozinha. E se eu não estava, também não se fazia de rogada. Entrava no meu quarto, deitava na minha cama, mexia nas minhas coisas, abria gaveta, experimentava meus sapatos, abria geladeira, ligava televisão. Enfim, era a pessoa mais entrona que eu já conheci. Deve ser até hoje, porque este é um hábito difícil de mudar. Mas esta amiga foi tão especial na minha história, solidária em tantas situações, sempre tão fiel, que acabei deixando pra lá. Continuamos por muitos anos levando sustos com suas aparições repentinas, feito um torpedo. E nunca mais briguei por causa disso. Ela não mudou, e eu aprendi que existem limites que não devem ser ultrapassados. Nem por uma boa amizade.
Quer testar uma amiga de verdade? Viaje com ela, durma no mesmo quarto, divida o banheiro durante um mês inteirinho. Se não houve desacertos na hora dos passeios, na hora do banho e na hora de apagar a luz - quando uma quer dormir e a outra está com insônia - maravilha.
Uma vez viajei com duas amigas para a praia. Foi a primeira e a última vez. A verdade é que em férias no mesmo hotel e no mesmo quarto, as pessoas estão sempre juntas e chegam a cansar uma da cara da outra. Até com marido e mulher é assim, vai dizer que não?
Enquanto eu levava 15 minutos para me arrumar, as duas beldades demoravam uma hora, quando eu queria ficar na praia no dolce far niente, elas queriam bater perna no shopping; eu não fumava e as duas chaminés infestavam o quarto. Até usaram meu óleo de passar no cabelo para bezuntar o corpo e se torrar na areia. Foram as férias do inferno.
Deve-se ter precaução até para viajar com aquela amiga para quem você contou seu caso de gaveta mais secreto. A amizade pode terminar de maneira sui generis. Ninguém fala nada e cada uma some para o seu canto sem deixar vestígios. Foi o que eu fiz.
De uma coisa eu tenho certeza: amigos verdadeiros estão lá de prontidão quando o urubu resolve pousar na sua semana. São cordiais, pacientes, tomam seu partido em qualquer briga. Uma boa amizade é firme como uma rocha. Sai ano, entra ano, lá está ela, no mesmo lugar, esperando você se recostar. Nisso eu dei sorte.

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