Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Contagem regressiva
Arquivo FolhaVocê está feliz da vida, sossegada, comendo aquela caixa de pistache todinha, tomando uma cerveja geladinha e folheando uma revista qualquer. Vira uma página, vira outra, e dá de cara com a Adriane Galisteu exibindo aquele corpinho que Deus deu e o diabo torneou. Tudo tinindo aquela moça tem. Bumbum, peito, barriga, perna, coxa. Ali, rente ao seu nariz. Ficou com inveja? Claro que ficou, e com ódio também. Então larga a revista e encara seu maior pesadelo: o espelho. É, aquele mesmo que você tem no closet e que escancara sua celulite, as gordurinhas daqui e dali. Aí pensa é mea culpa, mea culpa. Encare a realidade, santa, está gorda e o verão bate à porta daqui a pouco.
Verão. Todo gordinho evita a palavra. Porque ela significa nitidamente aquilo de que a maioria das rechonchudas corre léguas. Sol, piscina, maiô, biquíni, corpo à mostra, pernas de fora, barriguinha e peito dando a maior panorâmica. E aí? Fazer o quê quando dezembrão aportar? Desta você não escapa. Tem remédio pra tudo, mas para perder os quilos extras só tomando vergonha e fechando a boca. Enquanto é tempo.
Também não está mais aqui quem escreveu. Se você convive numa boa com as formas arredondadas, parabéns. Acho até legal quem assume as dobras da barriga - uma, duas, três. Desde que não sejam as minhas, maravilha. E tudo bem que uns quilinhos a mais também não são o fim do mundo. Desde que bem escondidos, of course.
Mas vamos dizer que você seja daquelas que chutam o balde de tanto comer e depois passam o verão fazendo simpatia pra chover torrencialmente. Curte os 30 graus suando em bicas numa camiseta de manga longa, se assando na calça jeans, alegando que o cloro da piscina irrita os olhos, que faz mal para o cabelo e que tomar sol é privilégio de quem não tem o que fazer. Quer enganar quem?
Quando se está com quilos extras e aquele monumento todo aparece na sua frente, convenhamos, a vontade é de se afogar e carregar junto a distinta. Ela senta, levanta, anda, pula. E nada. Absolutamente nada mexe, chacoalha, salta pelas laterais, como acontece com você, a esta altura uma gelatina ambulante.
A verdade é que não adianta pensar muito na situação real. Basta dar uma geral no corpinho e simplesmente fazer aquilo que todo gordo e gorda odeiam. Regime. E ginástica, que em outras palavras significa muita malhação, determinação e resignação. E boa vontade, porque você vai precisar dela mais do que tudo para encolher.
É claro que existem as abençoadas por Deus. Uma das minhas melhores amigas é assim. Come por duas e continua intacta, feito magia. Até melhora aquilo que não precisa mais ser melhorado. E não engorda um graminha sequer. Entra ano, sai ano, esta minha amiga não sofre um deslize. Tem as medidas que dariam brotoejas de inveja em qualquer Miss Venezuela. Mas nem convivendo dia e noite com esta minha cara colega fui contagiada por este fenômeno daö natureza que é comer e não ganhar peso.
Você alegar que não sabe porque engorda, porque come pouco, é utopia. Come pouco nada. Todo gordo come muito e vive com esta desculpa para camuflar a total falta de auto-estima. Duvideodó que às 10 da noite, assistindo à TV, você faz biquinho e não encara um belo pedaço de pizza. Pode até fazer um doce para impressionar o parceiro, mas come. Fica aquele pedaço entalado no estômago a noite inteira sem ser digerido.
Caia na real, é hora de perder peso! Porque quando a primavera e suas flores derem adeuzinho, vai ser tarde. Aí, magra, você poderá estar só no verão do outro ano.
Bateu o desespero? O tempo é pouco para enxugar os extras? Aí corta pão, massas, pula refeição, faz de tudo pra suar em bicas, come uma folha de alface no almoço e duas no jantar, desmaia na academia de ginástica, vê estrelinhas o dia todo e encara mil abdominais sem o mínimo preparo. Resumindo, faz tudo errado, na esperança de secar feito um coador de café em desuso.
É certo que não se deve ir com tanta sede ao pote. Como diz o ditado mais velho que rascunho de Bíblia: a pressa é inimiga da perfeição. E depois, o que adianta fazer um regime de doido e desistir no meio do caminho? Quer virar sanfona?
Um conselho de quem já conviveu com quilinhos extras durante muito tempo: já que foi gorda a vida toda, encare mais um desafio, o de ser magra. Mas fazendo tudo nos conformes, com acompanhamento de quem entende. E sem deixar pra segunda-feira, porque esta, eu e você conhecemos.
Também alega que não tem tempo pra malhar. Impossível. Todo mundo arruma um minutinho para se exercitar, nem que seja falando no telefone e colocando os bofes pra fora em cima de uma esteira.
Já passou da hora de viver se escondendo atrás de um camada de gordurinhas e de ser chamada carinhosamente de fofa, quando o que você mais quer é correr na contramão, ser fora de série, exercer aquele fascínio feminino e se achar uma lindona. E ser feliz acima de tudo.
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