Arquivo FolhaDepois de tantas idas à casa da tia Zinha aprendi que hóspede deve ter um único rumo: o hotelHóspede costuma sempre dar muita alegria. Quando chega e quando vai embora. Eu sempre digo que hóspede bom é aquele que aporta na casa da gente com pouca bagagem e cisca fora no momento certo. E que entra no ritmo da casa. Não são os anfitriões que têm que se moldar aos costumes dos convidados. É sempre o contrário.
Quando criança costumava passar as comemorações de final de ano na casa de parentes em Minas Gerais. E adorava porque era a chance de rever as primas. E depois, mineiro é sempre um doce de pessoa, adora receber, te bajula o tempo todo, adora fazer a gente comer. Coloca mesa de café farta, serve almoço, coloca a mesa do lanche - com direito a bolo de fubá, goiabada e broa -, depois serve o jantar e mais à noite ainda faz uma boquinha. E é uma desfeita não aceitar. Havia dias em que eu tomava o lanchinho da tarde pelo menos em três casas diferentes. Era visita atrás de visita e o resultado era sempre o mesmo, para o meu desespero: quilos extras na volta das férias. Porque comigo sempre foi assim, só de sentir o ‘‘aroma’’ da fornada de pão de queijo feita pela minha avó, o zíper da calça já não subia com aquela tranquilidade.
Mas com exceção de duas tias, sempre teve uma que era a pedra no sapato de qualquer parente. Ninguém queria ficar na casa da tia Zinha. Eu mesma pedia pelo amor de Deus para não ser a ‘‘sorteada’’. Esta minha tia viúva nunca mais se casou. Não porque ela não quisesse e sim porque nunca ninguém a quis.
Chata de marré, tia Zinha também era jogo duro. Quando era sua hóspede, eu arrumava a minha cama, com direito a lençol esticadinho e cobertor dobrado com as pontas juntinhas. Tomava água e lavava o copo. Após o banho, o banheiro reluzia, a toalha molhada ia para o varal e a calcinha, depois de lavada, eu secava no bafo se fosse preciso. Pia suja era um Deus me acuda. Limpava com saliva, se necessário. Fazia questão de rezar na cartilha dela. Qualquer coisa era melhor do que o sermão que esta minha tia rezava geração após geração. Mas tudo saia nos trinques. Resultado: era sempre eu a sobrinha convidada pela Tia Zinha para passar as férias de final de ano em seu sobrado, na rua principal de Ubá.
E tinha o Napoleão. Um vira-lata, companheiro-mor da dona da casa. E que babava no meu colo toda vez que eu resolvia dar uma encostadinha. Além de ter que agradar muito o bicho, porque era o xodó do pedaço, não descuidava da minha necessáire, já que o tranqueira comia batom, rasgava sutiã, puxava o fio da meia, lambia meu hidratante, cheirava meu xampu. E eu tinha ainda que mostrar os dentes e arrematar com a pérola ‘‘a gente compra outro, animal não sabe o que faz’’. (argh!).
A hora de comer na casa da tia Zinha era um capítulo à parte. Justiça seja feita, a danada sempre foi uma banqueteira de mão cheia. Comíamos sim, desde que não caísse farelo na mesa e depois, claro, ajudássemos na cozinha. Gente assim, todo mundo sabe, não tem empregada. Afinal, qual criatura consegue trabalhar numa casa em que a dona tira o domingo para dar um trato na geladeira, puxar o sofá para conferir os cantinhos sujos, e ainda assiste à televisão com uma máscara de abricó?
Depois de tantas idas à casa da tia Zinha aprendi que hóspede deve ter um único rumo: o hotel. Quando muito, e por pouquíssimo tempo, em casa de amigos, mas de parentes, nunca. E amigos daquele tipo que se você precisar deles às 4 da manhã numa rua escura e sem saída, eles vão te ajudar sem perguntar o porquê. Amigos daqueles que sabem teus ‘‘casos de gaveta’’ e que você não conta nem sob tortura. Aí sim, você pode se arriscar a passar uns dias na casa deste teu colega, que mora numa praia linda, num apartamento igualmente lindo e que, de preferência, não tenha um ‘‘napoleão babando’’ no seu pedaço.
Com toda sinceridade deste mundo, não sinto vontade de hospedar ninguém. Sou ótima cicerone, carrego para almoçar, para jantar, para passear, o que for preciso. Mas ter alguém dentro da minha casa, partilhando meu dia-a-dia, me deixa atrapalhada. O melhor é indicar um bom hotel e fazer todas as gentilezas possíveis. Não há mal-estar e a visita vai embora satisfeita da vida.
Além de já ter sido hóspede, também já hospedei. E senti na pele a situação num único final de semana.
Uma amiga do tempo de faculdade, e que eu não via há muito tempo, veio passar um final de semana na cidade e caiu de pára-quedas na minha casa. Depois de pensar e repensar, achei que seria muito egoísmo não receber a moça por duas noites apenas. E num momento insano, eu disse sim. Depois tive que pagar os 16 interurbanos - que não foram feitos por mim, of course -, emprestar meu aparelho de depilação, aguentar cara feia da empregada, escutar sugestões sobre a decoração da minha casa e passar dois dias sendo adepta da comida natural. Para o desespero das crianças que escutavam, de manhã à tarde, conselhos sobre os malefícios causados pelas batatas fritas e hambúrgueres. E sobre o nível de colasterol de cada alimento. Meu pequeno achava que a moça falava grego.
Mas, justiça seja feita. Não foi tudo um horror. Esta minha amiga tinha bom humor e ao se despedir me abraçou e arrematou. ‘‘Estava na hora de eu ir embora, não estava?’’. Concordei plenamente e na maior sinceridade.
Vez ou outra ela aporta por aqui. Mas me liga do hotel. E aí nos encontramos, batemos perna, damos boas risadas. E fica tudo bem.
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