Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
LOCOMOTIVAS AMBULANTES
Elisiê Peixoto

Primeiro vamos deixar uma coisa bem clara. Não tenho nada contra quem fuma. Desde que seja bem longe de mim, maravilha.
Acho até que acender um cigarro está ficando tão out que tenho convivido muito pouco com as chaminés ambulantes. Não gosto de cigarro, mas o fumante, coitado, vítima do próprio vício, chega a dar dó.
A maioria das minhas amigas fuma. E como. Lotam o cinzeiro de bituca, infestam o ambiente com fumaça, têm aquela tosse insuportável, aquele hálito que espanta qualquer cidadão no primeiro encontro. E dá-lhe cafezinho, uma tragada; dois cafezinhos, mais uma tragada; uma prosa qualquer e lá está a pira olímpica acesa entre os dedos. Também não corto barato de ninguém. Fico na minha e quando o fumacê está no auge caio fora.
Também não rezo o sermão antitabagista quando meus amigos fumantes baixam na minha casa. Eles estão carecas de saber o que eu penso da esquadrilha da fumaça. E sei que enquanto eu falo, eles escutam sem deixar de soltar aquelas baforadas em forma de argolas com o olhar perdido no infinito, de tanta importância que dão aos meus argumentos... Fumante é assim, dono da verdade. Cobrar e argumentar é inútil. Sei disso, porque convivo com um diariamente. Coisa difícil.
Por outro lado, quando a trupe resolve acender o cigarro na sala do meu château, escancaro janela, acendo vela perfumada, ligo ventilador, ar-condicionado, limpo cinzeiro, faço qualquer coisa. Sou bem ‘‘democrática’’. Não falo nada, deixo todo mundo à vontade e não dou na cara. A ponto de a sala ficar vazia e a única varanda do apartamento ficar abarrotada de gente dando suas tragadas. Maravilha.
Certa vez fui convidada para uma reunião muito formal, daquelas que você fica com medo até de cruzar as pernas. Me colocaram sentada ao lado de uma mulher toda posuda que fumou pelo menos uns 20 cigarros em duas horas. De nada adiantou a elegância da madame, já que ela exalou nicotina por todos os poros. Fiquei tão impressionada com aquele ritual de acender um cigarro no outro e de conversar soltando fumaça pelas narinas feito um dragão, que foi me dando uma coisa, um sufoco que saí feito um azogue em busca de ar puro. Tamanha falta de educação eu nunca havia visto - e constatado in loco. A mulher soltou baforadas na minha cara desde a hora em que sentou até a hora de ir embora.
É a mesma coisa que você acender um cigarro dentro do carro de um não-fumante. Gentileza é tão importante e não custa nada perguntar se o outro se importa com o fumacê. É claro que sim, mas ele vai dizer que não. Então não pergunte e amargue a vontade daquelas tragadas. Ter bom senso não faz mal a ninguém. Depois, no seu canto, morra de tanto fumar.
Duas coisas eu considero um horror: mulher mascando chiclete e mulher fumando na rua. Não sei o que é pior, acho que empata.
Mas não pense que já não dei minhas tragadinhas. Na época de colégio, eu e minhas amigas achávamos chic, lindo uma mulher acender o pito para impressionar os brotos de plantão. Fumávamos no banheiro da escola, nas esquinas, em praça pública, no quintal da vizinha, no quarto. Tossíamos feito loucas e depois era um Deus nos acuda, escondendo bituca no sutiã, borrifando desodorante no ar, abanando tudo para o fumacê ir embora e a mãe não sentir o cheiro. Até tontura eu tinha, porque com a mesada contadinha, comprava o maço mais barato e mais forte. Que nós chamávamos carinhosamente de ‘‘mata-rato’’ ou ‘‘arrebenta-peito’’. Mas a fase passou rapidinho e o bom senso predominou. Cigarro never more.
Sou pela paz. Então não costumo levantar bandeira antitabagista quando estou numa festa, numa viagem, em restaurantes. Quando há mais de duas pessoas e não estou no meu pedaço, calo a boca. Não vou brigar ou ficar com fama de chata ao argumentar aquilo que todo mundo sabe: fumar faz mal à saúde.
Mas se o papo parte do lado de um fumante de carteirinha, que insiste em afirmar que é pura conversa mole o mal que o cigarro faz, aí esqueço o cachimbo da paz. Enlouqueço a pessoa com as minhas teses antitabagistas e ela acaba sumindo do meu lado. Ela e o cigarro, com a graça de Deus.
Como já escrevi, convivo com várias pessoas que fumam e simplesmente a-do-ram o vício. Minha melhor amiga, uma fumante inveterada, idolatra o momento de ‘‘saborear’’ um cigarrinho numa sessão relax depois do trabalho. Aí, o respeito é mútuo. Ela curte o prazer longe de mim, eu não faço aquele discurso chato e somos amigas até debaixo d’água.
Mas, às vezes, quando saímos juntas, não aguento e até arrisco um comentário inocente do tipo ‘‘Mal chegou e já vai fumar?’. A resposta vem como um torpedo: ‘‘Quer brigar agora ou depois, chatonilda?’ Melhor ficar quieta e continuar a amizade.
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