Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Arquivo FolhaFree again, mais uma vez. É assim mesmo que determinadas pessoas passam a vida. Mal começam um affair, já dão um basta. Algumas por opção, outras porque são um porre mesmo: nada serve, nada está bom, nada está à altura.
Alguma tia sua já deve ter contado aquela história mais antiga do que rascunho de Bíblia: a vizinha, de tanto escolher, perdeu excelentes partidos, ficou solteirona, carola e cuidando da sobrinhada. E daí? Se for por pura opção, maravilha. Que se danem os incomodados.
Admiro aqueles que encaram a vida numa boa sem a necessidade de ter uma sócia de cama, mesa e banho. Tenho um primo quarentão, bonito e bem-sucedido que não casa nem por decreto de lei. É um mulherengo assumido e gosta disto. Para ele, casamento a essa altura significa prisão perpétua. Está solteirinho da silva e é feliz assim.
Minhas amigas que escolheram a solteirice são ponderadas. Não sabem dividir nem a pia do banheiro, quanto mais o dia-a-dia, que convenhamos, é coisa de doido. E, como elas, existem outras mulheres que dispensam qualquer sinal de tule, flor de laranjeira, chuva de arroz. Entram num relacionamento de cabeça e depois saem com uma tranquilidade ímpar. A mesma com que se amassa um papel e se joga pra trás. No dia seguinte estão prontas pra outra.
Ser completamente imune às emoções é a maior característica de uma destas amigas minhas, solteiríssima por pura opção. E por convicção também. Mas o babado com ela é diferente. Não sofre por coisa pouca, é bem resolvida e se apaixona na mesma proporção que deixa de gostar. Já se desencantou de um namorado só porque ele deixou o assento da patente levantado. Outro, no auge da paixão, deu um break e sugeriu que os dois tomassem um banhozinho antes. Já um terceiro colocou tudo a perder no momento em que sujou três cinzeiros de uma só vez e infestou o quarto de fumaça logo pela manhã. Credo.
Mas também tem gente que está sempre só porque vive atrás da perfeição. A mulher tem que ser linda, inteligente, culta, uma deusa, e qualquer deslize pode ser fatal. Mesmo porque ele também se considera a oitava maravilha do mundo. Este tipo de homem passa a vida perdendo ótimas companhias por causa de detalhes sem a mínima importância. Perdi a conta de quantas mulheres apresentei a um dos meus melhores amigos que hoje já está com o pezinho na casa dos 40 e arranhando parede nas noites de solidão. Hoje, nem que ele queira, duvideodó que uma única mulher se arriscasse a viver com o senhor perfeito. Está cheio de manias, é obcecado pela mãe e completamente imaturo na questão da fidelidade. Nem de graça e embrulhado em papel celofane.
Uma prima recém-separada me disse outro dia que viver a dois never more . E que casamento é bom quando começa e quando acaba. E que as solteiras por opção têm razão. Ser dono do próprio pedaço, não dividir a pasta de dente, beber Coca-Cola na boca da garrafa, andar sem roupa pela casa e dormir como a televisão ligada e chiando, são pérolas que apenas os solteiros conhecem.
Mas em tudo existem os dois lados. Morar junto ou casar, tanto faz, também tem o lado positivo. Porque deve ser difícil encarar um final de domingão chuvoso assistindo solamente Silvio Santos conduzir aquele quadro ma-ra-vi-lho-so Em Nome do Amor. Ou então ficar doentinho de cama sem ter uma alma gêmea para aguentar seus suspiros e dengos. Ah, ter um cobertor de orelha é coisa muito boa.
Acho que a chave da questão se resume numa única palavra: privacidade. Quem disse que não é possível mantê-la, mesmo que em doses menores, depois de casado? O respeito pela privacidade do parceiro deve começar no dia em que os dois passam a dividir o edredom.
Tanto faz se você é solteiro, casado de papel passado ou se apenas juntou as escovas de dente. O prazer pessoal é direito de todos. Nem que isto signifique passar o dia jogando paciência e tomar um vinho do Porto no meio da tarde sem maiores satisfações. E, de preferência, naquele canto da casa que você elegeu como sendo só seu.
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