Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Carrega uma cruz toda mulher casada com homem chegado numa birita. Não digo daqueles que bebem socialmente, ficam alegrinhos e completamente sem graça. Mas daqueles que entortam o caneco, mesmo. De vez. E que acabam com a festa de qualquer cidadã.
Homem bêbado fica incoveniente, insuportavelmente chato, quando não conta em alto e bom tom, durante uma festa apinhada de gente, que o cunhado é gay, que a sogra usa peruca, que a mulher é unha de fome, que o sogro é o maior paquerador do pedaço.
Casada com uma pessoa que mal sabe distinguir bebida fermentada de destilada, tenho a sorte de nunca ter sentido na pele o desprazer de dividir o edredom com alguém chamando a noite toda Jesus de Genésio. Mas sei de gente que já passou por situações de vexame total e que ficou sem colocar o pé na rua durante uma semana.
Tem mulher que passa a festa toda cuidando do copo do marido, regulando as doses daquela criatura porque pressente um ciclone chegando. Quando uns e outros passam da terceira dose dão show, dançam, bebem do copo alheio, fazem o diabo. E se bobear, se ajeitam no sofá da anfitriã, esticam os pés sobre a mesinha de centro e arrematam com a pérola: A festa está mais chata do que aniversário de criança em dia de chuva. Ou, pior ainda, como aquela que escutei saída da boca de um bêbado do qual eu não tinha a mínima intimidade: Vou fazer um xixizinho esperto e já volto. Dá pra acreditar?
Mas a vingança acontece sem você precisar fazer o mínimo esforço. Ela chega feito um torpedo no dia seguinte. Mesmo porque, depois de chamar o Juca, de quatro, no banheiro, a madrugada toda, o dono daquele porre homérico vai preferir estar morto. E haja Alka Seltzer, Engov, injeção de glicose na veia, chá de boldo, banho frio, café forte, saco de gelo na cabeça. Tudo para curar a sensação de que o dia do Apocalipse é aquele. Mas a ressaca permanece. Um dia, dois dias, até três. Aquele gosto de cabo de guarda-chuva na boca e o olhar de farol baixo denunciam a desgraça toda.
E se você quer vingança de verdade, então torça para que o dono do vexame se encontre logo com os convidados da mesma festa, mergulhe no túnel do tempo e morra de vergonha. Afinal, foram aqueles que presenciaram ele imitar o Tiririca, que o escutaram contar sobre as suas - não as deles - performances sexuais e, o que é pior, ficaram sabendo que você ronca e que deixa o box feito um varal: lotado de calcinhas penduradas. Coisa fina.
Bebida tem limite. As pessoas são convidadas para dar brilho à festa e não para apagá-lo, como faz qualquer beberrão que acaba roubando a cena e interpretando um papel desolador. Em qualquer festa deve-se comer de menos e beber de menos, mesmo porque o álcool é o maior aliado das gafes. Acredite, não há necessidade de empanturrar-se e chutar o balde só porque tem camarão e champanhe francês.
Homem bêbado adora uma platéia. Quanto mais gente assistir ao espetáculo, melhor. Nem bem aterrissa no festa e já está com a cara cheia. E tem alguns que se sentem tão à vontade e alegrinhos que acabam fazendo graça para a mulher do próximo. Aí todo cuidado é pouco, principalmente se o próximo estiver mesmo próximo. Com toda certeza do mundo vai rolar baixaria grossa.
Gente de pileque só tem um destino: a cama. E de preferência aquela do quartinho do fundo. É, aquela mesmo, dura feito pau, coberta com colcha de chenile e na qual a Rosinete ajeita as peças de roupa depois de passadas. Pior do que aguentar sua cara-metade completamente em órbita, é dormir com gente exalando bafo de álcool. Nem gambá aguenta.
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