No jornalismo existe uma regra que deve ou deveria ser seguida à risca. Antes de escrever o nome de alguém deve-se ler, reler, conferir tintim por tintim e, na dúvida, abrir a lista telefônica, procurar o nome do dito cujo e no caso da dúvida persistir, ligar diretamente para o interessado e fazê-lo soletrar. Principalmente se for um daqueles nomes adoráveis formado por uma vogal e quinze intermináveis consoantes. Não importa. O dono do nome quer vê-lo escrito corretamente. Mesmo que apenas ele e a mãe saibam pronunciá-lo. Errar o nome das pessoas em qualquer situação é gafe. E das feias. Fico repetindo isto o dia inteiro cada vez que cometo uma deste porte. Mas acontece e fazer o quê? O jeito é enfiar a viola no saco, pedir coragem a todos os santos e, depois, mil desculpas para o ofendido em questão.
Gafe faz parte da vida da gente. Por mais comedido que você seja, mais cerimonioso impossível, cá pra nós, você também já cometeu uma gafezinha. Não posso ser chamada a rainha das gaffeuses, mas dou meus escorregões vez ou outra.
Dia destes, completamente sem alternativa e na precisão mesmo, levei meu filho de 6 anos ao cabelereiro. Dentro do carro rezei o ‘‘Padre Nosso’’ que ele conhece, dei aquele leve apertão no bracinho e resumi numa única palavra o comportamento que ele deveria ter: educação.
Pois é, a gafe começou no momento em que tomei o rumo do meu coiffeur. Porque não existe nada pior do que criança circulando em salão de cabelereiro, mexendo no secador, abrindo esmalte por esmalte, rabiscando as revistas novinhas, brincando com os bobies, virando de um lado para o outro naquelas cadeiras em frente do espelho. A gente vai embora do salão como entrou, completamente descabelada. Foi o que aconteceu comigo. Levar ao cabelereiro aquelas coisinhas lindas que eu e você amamos, só por 15 minutos, num dia em que até mosca dorme. E em último caso para cortar o cabelo deles. Se é que você ainda não aprendeu fazê-lo em casa. Mãe com bom senso faz isto.
Falando nesta minha miniatura de gente, aos quatro anos, durante a missa de domingo e num daqueles momentos em que a igreja está completamente em silêncio, meu filho foi ao altar e perguntou ao padre porque ele estava de saia. Foi coroinha rindo de um lado, carolas de olhos arregalados e eu sentada alí, no primeiro banco completamente estática, com a certeza de que em determinados lugares não se leva criança. É gafe atrás de gafe. E meu Fernando é assim, fala mais que o homem da cobra. Só amordaçando.
Minha outra filha adolescente não fica atrás. Depois de olhar e olhar o brinco de uma amiga minha, muito rafiné e cheia de ‘‘não me toques’’, mandou ver e perguntou: ‘‘ É jóia ou bijuteria?’’ Digamos que era uma jóia de família, daquelas que tem um século, passada de tataravó para bisavó e etc, etc. Usada em ocasiões muito especiais. Um silêncio absoluto pairou e antes da persistência da gafe lancei para a minha sócia de batons aquele olhar que apenas mães e filhas entendem. E que docemente significa: ‘‘Cala a boca anjinho’’.
Aquela velha gafe de alisar a barriguinha da amiga e perguntar para quando é o nenê - quando a própria está é gorda e não grávida - eu também já dei. Mas também já fizeram comigo. Então, hoje, nem que a mulher esteja de 6 meses, enjoando na minha frente, bordando babador e tricotando sapatinho, não abro minha boca. Acho que esta gafe ainda é pior do que aquela em que a própria esposa é confundida com a mãe do marido. Já presenciei esta cena. O gaffeur ficou tão atrapalhado, que em vez de fingir um desmaio arrematou com a seguinte pérola: ‘‘Desculpe, mas as duas são parecidíssimas’’. Melhor fosse que tivesse enfiado uma empada na boca e ficado com ela fechada até o final da noite.
As festas são os lugares mais apreciados dos gaffeurs. Quer se divertir? Senta perto de um. De cara ele pergunta ao garçom a que horas vai ser servido o jantar. Está literalmente roxo de fome e se tiver jeito adoraria fazer uma ‘‘boquinha’’ até a hora do rango. Quem sabe um pratinho com quibe, esfirra e coxinha. Só pra forrar o estômago. Depois o gaffeur acende a pira olímpica na sua cara, dá umas boa baforadas e a apaga no vaso ao lado do sofá. Deixa a terra forrada de bituca.
Mas o gaffeur não pára aí não. Continua mandando brasa e ao apresentar a esposa ao amigo que não vê há tempo diz em alto e bom som: ‘‘Esta é a patroa. Boa num fogão que só ela. Dei a maior sorte’’. Coisa fina. Se fosse comigo acho que matava.
E se a noitada ainda não acabou, antes de ir embora o indivíduo quer conhecer o banheiro da casa. É mania de todos gaffeurs. Entra no lavabo e se delicia. Abre as gavetas do armário, experimenta os perfumes, mexe nos cremes, leva embora a toalhinha de linho com as iniciais da dona da casa, deixa vestígio por tudo. E ao se despedir da anfitriã sai com esta; ‘‘seu salmon estava no ponto’’. Quando na realidade foi servido haddock.
Como colunista social, passo apertado com a presença dos gaffeurs em festa. Porque eles são todos papagaios de pirata. Pegam carona em todos os flashes. Quando as fotos são reveladas lá estão eles mostrando os dentes ao lado dos noivos, com o pescoço esticado atrás da aniversariante, abraçado ao prefeito, de braço cruzado com o governador. Sem a mínima cerimônia.
Outra gafe de lascar é perguntar a idade de qualquer mulher. Não se deve fazer isso. Nunca. Eu não digo, mesmo porque se me perguntarem eu minto na cara dura. Parei nos 30 e deles não saio nunca mais. Nem sob tortura. É isso aí...

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