Os lugares que eu mais gosto de estar são apenas dois: minha casa e a Redação do jornal. E nesta ordem. Na minha casa, porque se me der na telha de imitar Carmen Miranda debaixo do chuveiro ou subir nas tamancas com os filhos na hora em que bem entender, faço isso sem o menor constrangimento. Afinal, o território é meu e nele sapateio quando quiser. Já no meu local de trabalho, não posso fazer o mesmo, mas é onde passo uma considerável parte do meu dia e no qual estão meus amigos e vizinhos de mesa e de computador. E com todos estes anos de convivência, aprendi que é prazeroso demais sentir o bom astral que impera numa sala de trabalho comunitária. Seja ela de uma repartição pública, de um escritório qualquer e até a redação de um jornal. Trabalhar ao lado de gente mal-humorada e que carrega para o serviço todos os recalques da vida, é muito pior do que engolir azeitona com caroço e ficar entalada.
Eu sei que às vezes é complicado manter a categoria no local de trabalho. Como, por exemplo, você se sentar ao lado de um colega que ‘‘bafora’’ na sua cara diariamente sem o menor pudor. Logo você, que abomina cigarro. Aí, nem todo bom humor da vida resolve. Melhor então chamar a chaminé ambulante num canto e rasgar o verbo. E, por via das dúvidas, esquecer na mesa do distinto um saquinho de bala de hortelã. Enquanto a bala estiver na boca do caro colega, você estará salva. E em último caso levante a bandeira de não-fumante e solicite um fumódromo - de preferência a um quilômetro de distância de sua mesa - como o que existe na Redação deste jornal. Coisa boa. A gente não sente o cheiro daquele cinzeiro abarrotado de bituca, não vê a fumaça nos ares e a esquadrilha da fumaça dá suas baforadas a la volonte. E ninguém fica de cara feia.
Tudo bem que tenho meu tabuleiro de fax, releases, fotos, cartas, anotações, contas, recadinhos e agendas. E às vezes chego a tomar um ‘‘pouquinho’’ o espaço da mesa do meu vizinho. Está errado, já que deveria ser mais organizada ou quem sabe menos obcecada por papel e por tudo o que me cai nas mãos.
Não jogo fora nem bilhete sorteado. Fico sempre com aquela sensação de que ‘‘posso precisar depois...’. Então tudo vai se amontoando e aí chega aquela hora de madrugar na Redação e colocar a vida - e as gavetas -, em ordem. Dou aquele trato, deixo meus colegas satisfeitos e tudo fica às mil maravilhas. É claro, tudo pela arte de bem conviver. De dez em dez dias repito a operação ‘‘caça fantasma’’ porque, segundo meus colegas jornalistas, daquele monte sai cada coisa que até Deus duvida.
Dependendo do dia, me fingir de muda e surda também é uma boa opção. Quantas vezes eu e você já fomos obrigados a ouvir malcriação, grosseria ou sentir aquelas alfinetadas endereçadas diretamente às suas costas?
Como não tenho água correndo nas veias, também sinto aquela sórdida vontade de pegar o pescocinho da distinta, apertar e com toda educação britânica perguntar: ‘‘Está falando comigo, santa?’’ Vontade a gente tem, mas não deve. Ignoro. Pelo menos naquele espaço que eu e aquela doçura de pessoa dividimos. Da porta pra fora são outros quinhentos. Aí resolvo a situação como acho melhor. Também não é preciso furar os quatro pneus do carro da moça, botar fogo na foto dos filhos que ela elogia das 8 da manhã às 6 da tarde, acrescentar porções consideráveis de pimenta na esfiha que ela comprou no boteco ao lado. Basta se impor e deixar bem claro: ninguém é saco de pancada em local de trabalho.
Muito antes de virar jornalista, trabalhei num escritório de uma empresa. Ao meu lado sentava um moço que, todos os dias, ao chegar em sua mesa, tirava da gaveta o porta-retratos com a foto da namorada. Beijava, beijava e colocava de frente para ele. Bem acomodado, ele resolvia fazer uma boquinha. Abria o tapeware envolto num papel alumínio e se refestelava. Tinha dia que era sardinha com pão; outro, bolo de banana e ainda outro, simples empadinhas. Caía pedaço por tudo. Até a moça da foto ficava com a cara coberta de farelo.
Nessas horas, Seo Sujismundo - era assim que nós o chámavamos -, esquecia a boa educação e se empanturrava a olhos vistos. Quando não resolvia trazer aqueles importados ma-ra-vi-lho-sos ‘‘del Paraguay’’ e espalhá-los pelo escritório afora a fim de acrescentar uma graninha extra.
Já comprei lenço da pior seda que existe, gravata sem etiqueta, caixinha de música com bailarina perneta, fita de videogame falsa, cueca samba-canção, meia fina furada, sombrinha sem funcionar e até óculos de sol horríveis que nunca usei. Camisinha musicada, nunca. Nem aquela que toca ‘‘Marselhesa’’ e que eu acho linda - a música, é claro. Na verdade, eu fazia qualquer coisa para aquela mala-sem-alça sumir do escritório com toda aquela quinquilharia.
Aprendi que uma convivência agradável no local de trabalho torna realidade aquilo que nos parece impossível: esquecer os problemas do dia-a-dia. E é assim que deve ser. Quando se trabalha de bom humor, tudo rende.
Quem disse que nunca derrubei café na blusa branca quando estava atrasava para o trabalho, ou mesmo que emendei a noite com o dia sem pregar o olho cuidando do filho com febre, ou que acordei com o telefonema da minha secretária-mor avisando que não iria trabalharö? Convenhamos, manter o bom humor depois destas três cacetadas, nem Madre Tereza de Calcutá. Mas e daí? O que é que o boy, a telefonista, o diagramador, o fotógrafo, o editor e até a recepcionista do jornal têm com isto? Nadica de nada.

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