Cá pra nós (Elisiê Peixoto)
ilustraçãoSabe aquele ditado de que as aparências enganam? Pois é. Eu sou exemplo em carne e osso. Sempre falando mais que o homem da cobra - desde que seja na minha casa ou na redação do jornal -, viro um freira carmelita ao me ver numa mesa recheada de gente com quem não tenho afinidade. Se depender de mim para falar em público ou tomar a iniciativa de pedir alguma coisa a alguém que mal conheço (mesmo que seja para apertar o botão de elevador) fica na saudade. Não falo e não peço.
Há alguns dias senti mesmo as bochechas queimarem só porque uma caixa de supermercado me perguntou se eu era a colunista social do jornal. Fiquei rubra. Fiquei com aquela cor de tomate passado, deixei cair a carteira, espalhei os cartões de crédito e cheque pelo chão e sai feito um azogue, equilibrando os pacotes. Por pouco não rolou batata, chuchu e abobrinha para arrematar o vexame. Sou assim mesmo, tímida de dar dó. Tem gente que não acredita, mas quem me conhece de verdade sabe que, apesar de alegre e divertida, também tenho este lado de pura caipirice.
Mesmo tendo mais de 10 anos de janela como jornalista, ainda fico pra morrer cada vez que alguém se aproxima e se refere à minha coluna. E não adianta. Timidez é coisa séria, judia da gente, faz o coração acelerar por nada, as pernas bambearem, cada situação que Deus me livre.
Sempre evitando ao máximo falar em público, de uma situação não deu para eu me safar. Num momento de pura insanidade aceitei conversar com um grupo de estudantes do curso de Comunicação Social. Imaginava um grupinho de jovens que iria me questionar sobre tudo aquilo que sei de cor e salteado. Então cheguei toda selerepe achando que iria tirar de letra a conversa mole, quando me deparei com uma classe inteira de ávidos e questionadores alunos. Foi um Deus nos acuda, que nesta hora não me deu uma ajudazinha sequer.
Deu dor de tudo. De barriga, de cabeça, dor no peito. Pode? Se pudesse, na mesma hora cavava um buraco e pulava dentro. Mas não fiz isso. Fiz pior. Emudeci. A boca secou e lacrou. Mais perdida do que cego em tiroteio, fiquei lá, olhando para o nada, e meus ouvintes observando e esperando esta múmia se manifestar. Acredite se quiser, mas precisei sair, respirar fundo e rezar para enfrentar aquelas 30 criaturinhas.
A vida inteira sofri com esta minha timidez bem disfarçada. E entendo qualquer tímido que por inúmeras vezes é chamado de antipático. Muita gente me considera assim. Dependendo da situação, me sinto como se estivesse em meio a um terremoto. Bastava uma cratera abrir que eu pulava dentro.
Uma vez ganhei uma festinha-surpresa de aniversário. E foi uma festa daquelas bem legais, em que fui literalmente arrastada para um restaurante onde me esperavam mais de 40 amigos, com bolo, bexigas e velinhas. Só faltaram subir na mesa e me pegar no colo. A intenção pode ter sido maravilhosa, mas o resultado foi um desastre. Não via a hora que tudo aquilo acabasse. E mesmo enfrentando o fuzuê com a maior categoria, mostrando os dentes pra todo mundo, desejava no fundo que um tornado me carregasse. De preferência pra minha cama e pra debaixo das cobertas. Precisei encarar uma bebidinha, que resultou numa ressaca digna de muitos Alka-Seltzer no outro dia. Uma beleza de comemoração.
Deveria existir um tratamento de choque pra gente que morre de vergonha de paquerar (todo tímido ama platonicamente), de fazer amizade, de viajar sozinha, de mostrar o corpo, de ser audaciosa, de apresentar um trabalho em sala de aula. Durante a faculdade, muitas vezes eu sabia responder às perguntas do professor, mas ficava encolhida num canto sem abrir a boca. E acabava perdendo boas notas.
E até hoje fico de queixo caído quando vejo gente que fala em público sem gaguejar, que reclama seus direitos de consumidor, que enfrenta uma viagem de carro sozinha (é o meu sonho, mas nunca na vida serei capaz de tal proeza).
Os tímidos têm dificuldade de partilhar os problemas e até de dividir responsabilidades. Eu mesma sempre acabo pensando melhor deixar pra lá que dou jeito sozinha. A gente encontra dificuldade até para desabafar e acaba pecando pelo excesso de autocrítica.
Ter tremedeira é algo corriqueiro na vida de um tímido. Sempre digo que prefiro escrever mais de mil linhas num canto, do que falar cinco minutos em público. Mas também não ajo como avestruz que esconde a cabeça pra vida. Tento dominar a situação e empurrar com a barriga este constrangimento que me acompanha desde criança. E tem sido com muito esforço que não perco as oportunidades da vida. Mesmo quando sinto o coração saltar pela boca, o rosto ficar feito um pimentão e as pernas tremerem mais que vara de bambu. Só que passa, sabe como é.





