Estilo ‘‘não tô nem a풒
Existem duas coisas na vida que eu não dou a mínima: o telefone celular - que vive mais desligado e jogado no banco traseiro do carro do que na minha bolsa -, e meu guarda-roupa, mais vazio que geladeira em véspera de pagamento.
Tenho um amigo muito chic que simplesmente a-do-ra uma roupinha nova. E se 16 portas de guarda-roupa são insuficientes para guardar ternos, camisas e gravatas, duas das oito portas do meu closet bastam para minha reduzida coleção de roupas. E ainda sobra espaço...
Verdade seja dita, não me importo com roupa. Acho lindo mulher vaidosa que se emboneca de manhã, de tarde e de noite, seja para fazer cooper, levar os filhos ao colégio e até para comprar mortadela na padaria do português. E admiro também a disposição dessa gente que combina tudo com tudo, cabelo sempre arrumadinho, as unhas perfeitas e aqueles modelitos impecáveis. Sem falar nos sapatos de salto sete em plena luz do dia, se equilibrando que é uma maravilha, andando como se pisasse em nuvens.
Meu desinteresse por roupas é nato. Minha mãe, sempre muito bonita, arrumadésima e vaidosa, deveria servir de exemplo e até hoje pega no meu pé por ser displicente com a moda. Afinal, minhas roupas se resumem a alguns leggings, uns modelitos sportswear, jeans, camisetas e três vestidinhos pretos, verdadeiros curingas. Basta eu abrir a porta do guarda-roupa e dizer ‘‘Meninas, qual de vocês quer passear?, que as três peças saltam pra cima da cama.
Um dos motivos pelos quais não gosto de comprar roupa resume-se a uma palavra: provador de loja. A maioria deles desestimula qualquer compra. Principalmente aqueles bem apertados, com um espelho rente ao seu nariz, escancarando sua celulite, sua barriguinha extra, aquele bumbum caído. O que adianta gastar dinheiro com uma roupa cara se o recheio está mais para empadinha de botequim do que para filé mignon? Aí, nem toda seda e ouro do mundo dão jeito.
Tem coisa pior do que vendedora ficar do lado de fora do provador perguntando, alguns decibéis acima do normal, se a roupa serviu, quando a loja está apinhada de gente? E você lá dentro colocando os bofes pra fora, querendo se suicidar porque o zíper não sobe nem com ajuda de um guindaste. Aí é obrigada a dizer bem baixinho, com aquela vontade de grudar no pescoço da distinta: ‘‘Traz um número maior, santa’’. Eu hem, por esta humilhação não passo nem a pedido da reencarnação de Coco Chanel.
Tenho as minhas regras de bem vestir, de me sentir bem, de andar como eu gosto. Isto não significa que ando mal-arrumada ou com roupa malpassada. Já vi muita madame recheando uma bolsinha Chanel com petit fours na saída de festas. Já vi até uma maroca enfiar um bem-casado no sutiã porque a pochete já estava bufando de caramelados. Depois vem falar do meu vestidinho preto de musseline, com um bordadinho sutil, que me cai como uma luva? Só porque já o usei por infinitas vezes? Não tenho vergonha de repetir roupa e acho uma pobreza quem tem.
Acho que a vaidade, aliada àquela competição de quem se veste melhor, acaba mesmo não respeitando nenhum limite. Como não estar na moda não me tira o sono, fico tentando entender por que existem mulheres - e homens também -, que para ficar em evidência gastam o que não têm. O que sobra em vaidade e ostentação falta em bom senso.
Para o desespero da minha mãe, sempre impecável em seus tailleurs, minha filha - a neta do coração -, é o meu retrato. Também não se liga em moda. Não chega a ser relaxada, punk ou adepta do piercing no nariz. Mas adora um jeans desbotado, uma mochila transada, um tênis fora dos padrões. E na reta de completar 15 anos, já me avisou quanto a sua festa: ‘‘Mãe, sem essa de début, trocar sapatinhos à meia-noite, vestido de princesa e gelo seco emergindo da pista de dança’’. Ela quer ganhar do pai uma viagem e, quando muito, uma festa com os melhores ingredientes: som de arrasar, o melhor DJ e os amigos reunidos.
‘‘E a roupa da festa, Roberta? , arrisquei. ‘‘ Ah, mãe, isso é o que menos importa. Um dia antes a gente resolve’’. É mesmo minha filha...
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