ARREDONDADA SIM. E DAÍ?


Tenho duas tias de Minas Gerais que vez ou outra resolvem aportar por estes ares. São engraçadas, simplórias e principalmente muito sinceras. Na última vez que estiveram aqui, depois de abraços saudosos e muita conversa, uma delas segurou meu queixo, me olhou nos olhos, apertou minha bochecha e soltou esta pérola: ‘‘Olha que belezura, rosada, gorda, vendendo saúde’’! Depois de 10 dias comendo uma rodela de tomate no almoço e duas no jantar, o elogio foi como uma facada no peito, ou melhor, no estômago. Mineirinha de Ubá, esta minha tia não falou por mal. Por certo achou que eu iria ficar satisfeita. Até esbocei um sorrisinho amarelo e fiz aquela cara de mamão macho, enquanto minha filha saía da sala feito um tornardo para gargalhar no banheiro.
Passei minha adolescência inteira escutando das avós e tias que eu era a mais ‘‘cheinha’’ das primas e netas. Das amigas - todas uns paus-de-virar- tripa - eu sempre me sobressaía pela largura. A hora do desespero ficava por conta das noites de sábado e ao me vestir para ir as festas. As pernas e coxas grossas eram um martírio na minha vida. Olhava com inveja aquelas saracuras, pernas secas feito bacalhau, que desfilavam rente ao meu nariz e que eu achava a coisa mais linda do mundo.
No calor fugia dos clubes e das praias. Rezava para chover o mês de janeiro inteirinho. E quando não tinha jeito ficava estirada na areia feito lagarto e só me levantava a hora em que o miolo fervia. Mas sempre com a canga devidamente amarrada escondendo o bumbum, a barriga encolhida, e com aquela pose de que está tudo bem, quando não estava.
E se por um lado escutava uns e outros me apontarem e dizerem: ‘‘Alí, perto da gordinha’’, também não tomava vergonha e continuava seduzida pelos prazeres da boa mesa. E foi assim por um bom tempo na minha vida.Duvido que exista algum regime que eu ainda não tenha feito. Da lua, da sopa, do astronauta, das estrelas, não importa. Caía na minha mão, era certo que eu encarava os três primeiros dias. Depois, só Deus pra ajudar.
Na hora de comprar roupa, outro dilema. Mãe de filha gorda sofre pra caramba. E a minha sofria, coitada. Afinal, nada serve, nada presta, nada cai como luva e a mãe é que tem culpa. E haja paciência.
A moda nunca facilita a vida de quem tem cinco, seis ou 10 quilos extras. Para os estilistas, ter um quilo a mais significa estar completamente out . Alguém já viu gordo ter guarda-roupa lotado? Nunca. São sempre aquelas mesmas peças básicas, retas, moletons e camisetas. De manhã, de tarde ou de noite, o mesmo estilo: aquele que disfarça tudo. Conhece?
Na época de faculdade tive uma amiga treinada para passar fome. Com tendência para engordar, ela tinha uma obsessão: ser magra o resto da vida. E conseguiu. Era capaz de trocar uma fatia de pizza por uma hora de esteira. Pode? Eu sou o contrário. Saboreio a pizza, me arrependo, sofro tudo que tenho direito e depois malho o que for preciso. Mas não passo vontade.
Como a grande maioria, sou uma mulher fora dos padrões de beleza. Mas aprendi a conviver com isso, encarar os defeitos e ressaltar minhas qualidades. E acho que toda gordinha deveria fazer isso.
O que não tem remédio, remediado está. Afinal, pernas e coxas grossas vão me acompanhar o resto da vida. O jeito é tirar proveito delas. Tem quem goste, como não?
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