Douglas MayerAinda não foi descoberta a fórmula ideal para se viver junto. Dividir a mesma toca exige boa dose de paciência, que deve ser exercitada diariamente, coisa que não é fácil. Duvido qual homem ou mulher que nunca tenha acordado com aquela vontade de chutar o pau da barraca, pegar um avião e descer em Bali. Longe de qualquer resquício que lembre alho, salsinha, cebolinha, toalha molhada sobre a cama, cueca fora do cesto, pasta de dente sem tampa, calcinha molhada no box do banheiro e tênis sujo no corredor.
Não que eu ache que viver junto seja uma tragédia. Acho até que viver só é tão difícil quanto. Aquela idéia de independência e emancipação, na prática, a conversa é bem outra.
Dividir o edredom, dormir um do ladinho do outro, é ótimo. Acordar já não é aquela maravilha. Até Cindy Crawford acorda com a cara amassada e com aquele humor matinal que eu e você conhecemos. Então o ‘‘pega’’ começa logo aí, quando um não respeita o sono do outro. Porta batendo, cantoria e assovios debaixo do chuveiro às 6 da manhã fazem você perguntar a si mesma com o travesseiro cobrindo a cabeça: O que foi que eu fiz? Coisa dura é a convivência!
Não falo só do dia-a-dia, homem e mulher, casal. Mas num todo, incluindo aquelas criaturinhas egoístas que colocamos no mundo. Quem disse que é pecado ter vontade de despachar os santos para uma colônia de férias, para uma temporada na casa dos avós, para a fazenda dos tios? Se for, danou-se. Perco todo mês.
Vez ou outra cansar um da companhia do outro não significa deixar de gostar. Nem que não se queira mais morar junto. Mas, às vezes, é tão bom voar só, sem aquele compromisso diário com tudo e todos. Até filho precisa descansar de mãe e pai. Quando minha filha diz ‘‘Mãe, dá um tempo’’, é porque estamos, ambas, ‘‘pelos tampos’’.
E foi justamente numa destas ocasiões em que encafifei de querer um tempo. Também não questionei muito. Simplesmente me inclui na viagem de duas amigas. Ao Caribe. Foi um Deus nos acuda, cara feia de um lado, chantagem emocional de outro. E depois de tantos planos, e sem maiores explicações, consegui decolar.
Foram 10 dias sem marido e filhos, acompanhada apenas por uma pontinha de remorso, mas com a alma reciclada e a cabeça descansada. Voltei tão zen, tão boazinha, que a família resolveu investir nestes vôos. Um ano depois fomos em três a Paris. Eu, uma amiga solteira e outra casada. Esta última batia asas sozinha pela primeira vez. E se sentiu salva.
Sempre digo que o melhor de uma viagem sozinha é a volta. Marido e filhos de prontidão te esperando no aeroporto, beijos e abraços, uma bajulação só. E muita saudade, é claro. Quer saber? Confiança num casamento se conquista. Respeito e independência também. É isso aí.

mockup