Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Ivo AkioUma tia minha, muito chic e viajada - sem ser necessariamente muito culta -, vivia dizendo que fosse o que fosse, nunca, mas nunquinha descia do salto. Mantinha a classe em qualquer situação da vida, inclusive naquelas em que determinadas pessoas te perguntam coisas com a certeza plena e absoluta de que você vai boiar completamente.
Quem nunca passou por uma situação dessas? Você resolve entrar numa galeria de arte para se reabastecer culturalmente, pára em frente a um quadro de algum impressionista, pensando nos cheques pré-datados do mês ou na troca da tintura do cabelo, que está um horror. Um aficionado em arte encosta. Daqueles bem chatos e a fim de te fazer um monte de perguntas sobre o autor da obra. Fazer o quê? Segundo minha tia, engolir seco, olhar fixamente para a tela e mandar ver: É tão lindo, não tenho palavras. Pronto, qualquer um vai sacar que você não entende bulhufas da obra-prima. E sumir.
Ninguém gosta de passar recibo de ignorante seja qual for o assunto. Por esta razão é que em determinadas rodas o melhor mesmo é lacrar a boca, ter uma crise de ausência. Simplesmente escutar e não falar. Ou no máximo arriscar um penso da mesma forma que você. Assim ninguém desce do salto e poupa as pessoas da infinidade de besteiras que poderiam ser ditas.
Mas a pérola que ouvi e nunca mais esqueci partiu de uma amiga que viajou para a Europa pela primeira vez. Ao perguntar se havia ido a Paris, ela, com toda classe possível, afirmou, só por cima. Leia-se a 12 mil pés de altura, numa velocidade de 300 kilômetros por hora e hermeticamente fechada num Boeing. Mas convenhamos, ela não mentiu de tudo. Também não viu nada.
E gente que adora conversar sobre ópera? E te perguntar qual você mais admira, em qual teatro da Europa assistiu, qual a sensação sentida diante de tanta grandeza, quando a única coisa internacional que você assistiu na vida foi Rick Martin cantando no ginásio da sua cidade?
Esta minha tia era mesmo muito engraçada. Chegou a discutir com uma senhora italiana, dona de vários antiquários em Roma, a história de La Traviatta, de Verdi -, sem nunca ter assistido. Acredite se quiser, mas ela chegou a opinar com a maior categoria.
Uma conhecida minha, depois de uma entresafra que durou quase dois anos, arrumou finalmente um namorado. Lindo, rico, inteligente e completamente disponível. E que adora cozinhar, é um expert em cozinha francesa, italiana, cubana, tudo. O homem sabe preparar qualquer coisa. E ela, nada. Muito mal, um macarrãozinho alho e óleo. No primeiro encontro, não chegou a mentir de tudo, mas arriscou: Já me especializei em cursos de gastronomia. Cansei e hoje adoro ser servida. Principalmente pelo homem que amo. Curso até que ela fez, sim. Aprendeu a rechear um frango como ninguém e a sua especialidade é um feijãozinho tropeiro. Tem quem goste, como não?
Uma vez, durante um simpósio entre mulheres do qual eu participava como mera espectadora, iniciou-se um debate sobre os temas abordados nos livros de Simone de Beauvoir. Até então sabia apenas duas coisas: que a escritora francesa deu corpo e alma ao feminismo e que foi a grande paixão do filósofo Jean-Paul Sartre.
Ao ser solicitada para dar meu parecer, cruzei o dedos e mandei ver: Li poucas obras de Simone de Beauvoir. Mas o que interessa mesmo é que ela aboliu o mito do eterno feminino. Foi a coisa mais importante que ela deixou para a minha e muitas outras gerações de mulheres. Pronto, não precisei dizer mais nada. Muito melhor do que ficar com aquela cara de mamão-macho, própria de quem não sabe a resposta. Acredite se quiser, mas até aplaudida fui.





