Ca Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Arquivo FolhaPor apenas um motivo troco calçada sem pestanejar. Quando avisto aquele tipo de gente que reclama de tudo, que fala sem ponto e sem vírgula, e que vive de mal com a vida. Sabe aquelas pessoas onde urubu fez delas sua pousada? Não importa o dia, o mês, o ano, a ocasião. Ela vai estar sempre se lamuriando, falando da vida alheia, colocando defeito em tudo, maldizendo o dia que nasceu, contando os infortúnios da vida.
Eu perdi a paciência com pessoas assim há vários anos. Acho que atrai maus fluidos, que são muito piores que aquelas ressacas homéricas tais como um ciclone que varre os últimos pedacinhos que te restam. Pessoas de mal com a vida encostam na gente e deixam um rastro de negatividade. Basta você perguntar se está tudo bem, para ela te responder que a enxaqueca voltou, que o marido arrumou amante, que o filho reprovou na escola e daí afora. Deus me livre. Que angu de caroço é gente assim.
Já cruzei estas malas sem alça em vários lugares. Dentro do avião - bem ao meu ladinho - em festas, por telefone, em restaurantes. Coisa séria. Elas pipocam por todos os lados doidas pra fazer uma vítima. Porque gente assim adora ver o outro arrasado. Nem que for por causa das tragédias alheias. Quando sentir a presença de um chato desses, fuja, desapareça, se esconda. Porque poucos minutos são o suficiente para te deixar completamente down.
Também tenho meus dias de mau humor. Quem não tem? Mostrar um belo sorriso com o limite do banco no osso, com a falta da Rosinete no dia em que o colégio dos pimpolhos faz recesso escolar, e com o vídeo e o computador pifados ao mesmo tempo numa semana de chuva, convenhamos, nem a Miss Simpatia mantém a pose. Mas daí fazer disso uma desgraça, convenhamos...
Durante muito tempo tive uma vizinha assim. A guerra da Bósnia comparada à vida dela era o jardim da felicidade. Não me recordo de um dia em que esta moça estava plena e realizada. Se a empregada faltava na segunda-feira brava, a primeira coisa que ela fazia era baixar na minha casa para se lamuriar. Bem na hora do meu café. Antes mesmo de ligar para o marido e azucrinar a vida do coitado. Depois descontava nos filhos, salgava o almoço - por gosto - e ao encontrar a próxima vítima no elevador, transformava alguns segundos num vale das lamentações.
Benza Deus como eu gosto de gente com o astral bom. Porque eu sou assim também. Então, combato as emoções negativas, ponho pra correr os urubus da vida, esfrio a cabeça quando a coisa tá feia, não sofro por coisa pouca. E não me penduro no telefone a fim de contar pra mãe, tia ou prima, quando a coisa ferve. á
Desabafar com uma amiga vez ou outra é necessário. Mas fazer disso um hábito é falta de respeito e principalmente de um bom desconfiômetro.
Tá com raiva do mundo? Visita um asilo, vai num orfanato, faz uma caridade. Assim dissipa os maus fluidos e sobra pouco tempo para as abobrinhas da vida.





