Cá pra nós (Elisiê Peixoto)
Cá pra nós
Elisiê Peixoto
É hora de perdoar
Elisiê Peixoto
Assistindo a uma palestra dada por Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, conferencista e autor de livros, escutei algo que guardei na mente e no coração. O palestrante ao falar sobre arrependimento contou que durante muitos anos trabalhou com pacientes terminais, e que muitos deles, antes de morrer, confidenciavam a ele sobre o que mais tinham se arrependido por ter deixado de fazer durante a vida, enquanto desfrutavam de saúde. Em primeiro lugar, mais de 90% dos pacientes, se queixaram de não ter dado mais amor ou se dedicado mais ao companheiro durante os anos de casados. Em segundo lugar, a tristeza era por não ter se dedicado aos filhos de forma mais integral, de não ter acompanhado mais de perto o crescimento das crianças e adolescentes passo a passo; e em terceiro lugar, por não terem realizado um grande sonho.
E tudo isto me fez refletir muito porque a vida passa rápido demais, é só a gente olhar para trás. Mas nunca é tarde para nada: para realizar um sonho, para viver melhor com seu companheiro, para acompanhar o crescimento dos filhos e principalmente para perdoar. E toda vez que passamos por uma experiência de perdão a vida da gente melhora em todos os sentidos. Falo com conhecimento de causa. Perdoar alguém que lhe magoou tão profundamente não é fácil, mas é possível. Depois a gente nem se lembra mais do que aconteceu.
Antigamente tinha o pavio curto. Para fechar o tempo era uma questão de minutos. E não fechava só o tempo, também dava um jeitinho de colocar de escanteio e apagar da memória a tal pessoa. E foi assim por muitos anos, porque me permitia viver bem naquela situação, independentemente do que o outro sentisse. Mas a vida ensina, e nunca é tarde para aprender. Ou para saber aceitar com humildade os erros e as imperfeições das pessoas, e também aprender a respeitar diferentes códigos de valores.
Semana passada escrevi e volto a reforçar, que nós costumamos julgar correta a atitude de outra pessoa quando ela age exatamente da forma que nós agiríamos. E quando ela age diferente, nunca levamos em conta uma série de fatores que fizeram com que a tal pessoa agisse daquela maneira. E quem somos nós para julgar? Então precisamos aprender a perdoar.
Tem gente que passa a vida toda com raiva de alguém. O que acaba prejudicando a ela própria. Porque a falta de perdão é como um veneno que você ingere e acaba matando todos os que convivem com você. Porque a falta de afetividade, de amor, de tolerância nos deixa ilhados completamente. Ninguém suporta conviver com alguém tão amargo.
Sabemos que é difícil voltar a confiar em alguém que um dia nos enganou. Como sobreviver a uma traição? Como perdoar a mentira de uma amiga? Como esquecer um boato levantado por alguém tão próximo a nós? Muitas vezes convivemos anos a fio com uma pessoa e, em dado momento, ela pode nos surpreender, causando a maior decepção. Mas quando nos propomos a passar uma borracha no passado, acredite, tudo fica mais leve. Perdoar faz a gente se sentir liberto.
Imagino um daqueles pacientes terminais atendido pelo médico Shinyashiki que não tenha tido tempo de pedir perdão a alguém. Quem sabe ao marido, à esposa, aos filhos, a um amigo. Deve ser uma sensação de muita tristeza. Quando brigamos, quanta bobagem é dita e pensada. Aí é a vez de nos desculparmos. Mais difícil de perdoar, é pedir para sermos perdoados. É necessária uma boa dose de humildade. Mas todo mundo é capaz.
Pessoas que não conseguem pedir perdão pagam um preço. Os amigos, os filhos e a família se afastam gradativamente. Mesmo assim ainda resta uma única esperança. É quando se chega ao fundo do poço e o pedido de ajuda é inevitável. Talvez seja esta a grande chance que Deus nos dá para perdoar e sermos perdoados.
Quando conseguimos liberar o perdão, conseguimos viver bem com a família, com os amigos, os inimigos deixam de ser inimigos, nossos sonhos são alcançados mais facilmente e a gente deixa de ser escravo do passado. Quando a gente perdoa, tudo fica para trás e a gente retoma o caminho do nosso coração.





