Cá pra nós (Elisiê Peixoto)
Cá pra nós
Elisiê Peixoto
Pernas grossas, sim. E daí?
Os leitores pediram e volto com as minhas crônicas numa fase em que estou mesmo à vontade para escrever sobre o cotidiano. E enfrentando um calor que se sobrepõe ao inverno, me lembro que é hora de emagrecer e entrar na linha. Porque a gente sabe que nada hoje em dia favorece as gordinhas. E eu sou uma que faço parte da legião de mulheres que desde criança tem que fechar a boca para não acumular quilinhos extras.
Durante a adolescência minha melhor amiga era magra, mais de 1,70 m, e de aparência dominadora. Mas só tinha tamanho, porque era tímida e no final acabava eu mesma perguntando e respondendo por ela. Eu, que também não sou nenhum exemplo de extroversão ficava morrendo de dó desta amiga, porque lidar com a timidez é coisa dura. Imagina então quando se é gordinha aos 15 anos, sem grandes perspectivas de namorados, numa fase em que absolutamente tudo parece ser feito para as adolescentes magras e quando tudo é permitido: barriga, coxas e pernas de fora.
É fato. Toda gordinha parece nunca ter vez. Se tem quilos extras, está completamente fora dos padrões de beleza. Se emagrece um monte, é porque tomou anfetamina e quase pirou. E se suou a camisa e perdeu as dobras após horas de malhação, é taxada de mentirosa por uma trupe de despeitadas.
A gente sabe que os anos não melhoram a aparência de ninguém. De gordo, então, nem se fala. Se você foi obeso na infância e na adolescência, os quilos extras vão lhe acompanhar até o fim da vida. E se nada é feito a respeito, o jeito é se conformar com o visual arredondado e tentar tirar proveito da situação. Mas digo com conhecimento de causa: ninguém é feliz com 10 quilos extras. Nem Rei Momo, o único gordo que conheço que tira algum proveito da sua imagem.
E já que a cobrança pelo visual maravilha é sempre apontada para a mulher, todo homem deveria também cuidar daquela barriguinha saliente que pinta aos 40 anos. E da calvície que para alguns é sinônimo de charme, mas de charme não tem nada. O recado não serve para aqueles insuportavelmente vaidosos, que se amam 24 horas, cultuam o próprio corpo malhado achando tudo aquilo uma maravilha e se consideram um Deus grego. Homem vaidoso é pior que mulher.
Com um sol escancarado e um céu limpíssimo, a gente se lembra de piscina, praia, saias curtas, decotes generosos, miniblusas e as calças Saint-Tropez. Aquelas que Adriana Galisteu insiste em usar para provocar, matar a gente de inveja e provar os abdominais da vida.
E haja regime. Eu acho que já fiz todos possíveis e imaginários. Mas nada se compara à malhação diária, suar a camisa durante horas na academia e depois se conformar com muita salada, fruta e um filé de franguinho grelhado. E vou passar o resto da minha vida comendo isso, mas é uma opção feliz. Porque ou é isso, ou são quilos extras acumulados nos lugares mais estratégicos do corpo. Quem tem tendência para engordar tem que selar a boca, não existe milagre.
Se quando adolescente achava lindo as amigas magras feito bacalhau e com aquelas pernas longíneas, hoje me conformo com as minhas pernas e coxas grossas que vão me acompanhar o resto da vida. E trato delas com todo carinho do mundo. Afinal, o que não tem remédio, remediado está.
Como uma mulher vaidosa, aprendi que devemos tentar melhorar aquilo que Deus não favoreceu. É um compromisso que temos com a nossa imagem.
A partir do dia em que aceitei minhas partes volumosas e deixei de ter fixação por regimes, me senti leve e mais bonita. E é assim que tem que ser. Só não pode relaxar porque a lei da gravidade é para todo mundo. Deve-se tirar proveito daquilo que você tem de melhor, mostrar, curtir e ficar de bem com a vida.
Manter-se bonita e magra significa disciplina e perseverança. E eu aprendi isso depois de tomar consciência que auto-estima é necessária para a sobrevivência. Gente que não se gosta morre cedo.





