Cá pra nós (Elisiê Peixoto)
Cá pra nós
Elisiê Peixoto
A presença dos pais
Estes dias escutei uma amiga dizer que a educação do filho é por conta dela porque o marido já faz muito: trabalha para sustentar a casa. E fiquei pensando no que ela se baseou para tal afirmativa. Que o marido sustente a casa - com ou sem ajuda da esposa - isso é o correto, mas daí querer livrá-lo da tarefa de educar os filhos porque ele está sempre cansado, e poupá-lo de determinadas situações vai resultar em problemas futuros difíceis de ser resolvidos. E aí, sim, ele vai saber o que é ser pai.
Filhos precisam ser educados pelo pai e pela mãe. Até entendo que ainda é difícil - mas não raro - encontrar um marido que troca fralda de nenê no meio da madrugada, enxuga aquela louça na pia, dá remédio na boca, recolhe a roupa da máquina de lavar e, vez ou outra, surpreende a esposa com um carinhoso café da manhã na cama. E quem disse que homem não pode ou nunca tem hora para dar uma mãozinha no day by day doméstico quando a coisa aperta?
Mas, voltando aos filhos, acredito que quando a mãe acaba assumindo sozinha - muitas vezes em função de alguma situação que foge ao seu controle - a educação das crianças, um dia, lá na frente, quem acaba chorando e se lamentando é o próprio pai. Porque voltar no tempo para compensar a falta de carinho, a falta de correção, a demonstração de total incapacidade, será tarde. E creio que existem homens que agem desta maneira por se sentirem inseguros e incapazes. E outros, por puro comodismo.
O pai que descarrega na mãe todas as responsabilidades porque não quer ter mais dor de cabeça, é aquele tipo que quer continuar a ter a vidinha tranquila, chegar em casa e encontrar tudo nos trinques, não ter que se sentar com o filho para fazer tarefa ou simplesmente conversar sobre o que aconteceu no dia de cada um.
Conversando sobre o assunto com um psicólogo, ele explicou que há pais tão inseguros que se escondem da obrigação de criar os filhos, dando desculpas que não passam de mentiras para enconder suas próprias fraquezas. Preferem fugir da meta da criação dos filhos e suprir todo o tempo possível com outras atividades. Inclusive arrumando mais serviço para ficar fora de casa e encontrar os pimpolhos à noite num sono profundo.
Desde que seja bem longe de mim, não tenho nada contra homem que se dá ao luxo de largar o par de sapatos na sala de televisão, o cinzeiro recheado de tocos de cigarro, a pia do banheiro entupida de barba, a camisa jogada no bidê, a toalha molhada sobre a cama, a calça jeans suja caída no carpete do quarto, a tampa de desodorante em algum canto jogada, o leite fora da geladeira e as três partes do jornal separadas, desdobradas e de preferência jogadas no chão do banheiro. Tem homens que são bagunceiros por natureza, mas que são pais presentes, participantes, sensíveis e que curtem muito os filhos. Aí uma coisa compensa a outra.
Você pode até conviver com a camisa do marido jogada e amassada dentro do bidê, mas não deve admitir a falta de tempo dele para com os filhos. A gente só percebe isto quando as crianças crescem e se tornam sensíveis à figura do pai. Sofrem por dentro com a rejeição, com a falta de atenção, com a falta de paciência. E acabam querendo compensar esta ausência com outras coisas fora de casa. Ou deixam fluir o conhecido complexo de Édipo, o que não é saudável para ninguém, principalmente para a mãe.
Há exceções. Sei de marido de amiga minha que até comida e banho em criança deu por vários anos. Só para mulher poder terminar a faculdade numa boa. Quer saber? Não fez mais que a obrigação. Se a gente gosta e se preocupa tanto com eles, qual o problema em pequenas divisões de tarefa? E depois, o filho é dos dois e não há nada no mundo que mude esta situação.
E se a calça do marido continuar no chão do closet, os CDs fora da caixinha e as meias no tapete da sala de TV, ameace dar as peças de roupa para os mais necessitados e deixe os CDs para os filhos, os netos, os sobrinhos brincarem de bumerangue. Mas não guarde. Instale a democracia familiar. Mas se com tudo isto ele for um pai que vale a pena, daqueles que sabem o verdadeiro sentido da palavra pai, dê um bom desconto a tudo, ignore certos detalhes e reconheça que você é uma mulher abençoada por Deus.
Acredito que um pai sempre presente, que dá disciplina, e que demonstra amor incondicional pelo filho será recompensado mais tarde. Pelas atitudes dos próprios filhos quando eles se tornarem donos do próprio nariz, pelo carinho e reconhecimento da esposa e principalmente, recompensado pela vida.
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