Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Foi uma verdadeira peregrinação. Dias atrás, em São Paulo, de aeroporto a aeroporto, durante um dia inteiro. Coisa de doido aquele trânsito, aquela gente acostumada a uma rotina de perder o cabelo. Aí é que eu dou mais valor à minha cidade, que pode não oferecer o melhor circuito cultural do País, mas na qual posso transitar de um lado para o outro sem aquela paranóia de chegar atrasada ou de pegar um engarrafamento como aquele que peguei recentemente, indo para o aeroporto de Cumbica com os minutos contadinhos para poder decolar de volta a Londrina.
Vi de tudo e escutei de tudo. E cenas engraçadíssimas. Gente se descabelando dentro do carro, mulher e marido berrando um com o outro, criança chorando no banco traseiro, gente se abanando fora do carro e por aí vai. E eu dentro de um Santana, torrando de calor - o ar não funcionava - e ouvindo Vando e Amado Batista.
O motorista, acostumadíssimo àquela situação, me contando quantos assaltos já sofreu, como é difícil sobreviver à paulicéia desvairada, que a vida está mesmo uma loucura, que pobre sofre naquela terra, etc, etc. E nem aí com a minha agonia de perder o vôo. Eu, a ponto de saltar do carro e tentar chegar ao aeroporto de ônibus, a pé, a cavalo, de bicicleta, por fax. Doce ilusão! Eu sabia que dentro de 20 minutos meu avião estaria nas alturas. Querido leitor, perder um avião, cheia de compromissos, arrasa. E perder um avião em São Paulo, enlouquece.
Aí já me vi na lista de espera. Com a atual crise econômica no País, imaginei que lugar é o que devia estar sobrando num próximo vôo. Então mudo o trajeto e vou para o outro aeroporto e me dirigo ao balcão de outra companhia. E tento me garantir. Porém sou informada que vou ter mesmo que enfrentar a lista de espera. A essa altura, fazer o quê? É quando me bate a saudade do meu telefone celular aposentado há seis meses.
Procuro uma sala vip de qualquer cartão de crédito e telefono para os filhos, para o chefe, para a empregada, adio compromisso, cancelo reunião e prometo a mim mesma que a partir daquele dia só viajo de ônibus.
Depois de ficar uma hora com aquele semblante de cachorro magro olhando para a balconista - que me ignora completamente - eu não consigo viajar, decididamente. Pelo menos naquele avião. Só amanhã, naquele aeroporto onde eu me encontro. No outro - aquele de onde eu vim gastando uma fortuna em táxi - tem um outro vôo à tarde.
Com sacolas penduradas por todos os lados, bolsa e mala despencando, não há classe que resista. A gente fica mesmo a fim de rodar a baiana. Quem aguenta manter a finesse? De volta ao aeroporto - aquele em que não conseguiu chegar às 9 da manhã - é hora do momento fatal. Porque, se não conseguir um lugarzinho ao sol, vou ter que enfrentar mais um dia de loucura em São Paulo.
E finalmente, com a ajuda de Deus, consigo embarcar. Espero quatro horas para o embarque. Mas, o que são quatro horas para quem viveu sete horas de tortura? Sento numa cadeira dura, conto mosquito, lixo as unhas e se bobear tiro a cutícula. Leio jornal do dia anterior, revista Capricho, como pão de queijo e tomo uns três cafezinhos.
Na hora exata de embarcar sou a primeirona da fila. Não perco aquele avião por nada no mundo. É difícil crer que logo vou aterrissar na minha terrinha querida, pegar um táxi e em dez minutinhos estar na minha casa. Tem coisa melhor?
Isto, caso haja teto por aqui. Senão, o destino é Porto Alegre, lá longe, no Rio Grande do Sul, como aconteceu com amigos meus que demoraram dois dias para vir de São Paulo a Londrina. Você sabe quando embarca, mas não tem certeza quando aterrissa...
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