Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Coisa dura para quem não gosta de Carnaval. Ou pelo menos para aqueles que já não gostam mais. Porque eu adorava, mas hoje fujo porque quero a tranquilidade da minha casa, assistindo a alguns filmes, jogando conversa fora e no máximo tomando um solzinho e um banho de piscina.
É aquilo que todo mundo sabe. Carnaval, você ama de paixão ou não suporta nem ouvir falar. Não existe meio-termo. Mesmo porque é fácil distinguir um não folião em meio ao salão, encostado na mesa, de braço cruzado e com aquela cara de mamão macho. Doido para surrupiar daquele fuzuê que rola só quatro dias durante o ano, mas que para um não carnavalesco é mais do que o suficiente.
Tem gente que gosta tanto de Carnaval que entra no clima uma semana antes, fica com os pezinhos formigando, namorando a fantasia no cabide, com dinheiro reservado para o camarote e se aquecendo em todas preliminares da Folia de Momo.
Para quem não gosta, ô sofrimento... Depois que acaba o folia, o assunto fica rendendo um tempão até curar a ressaca de alguns. E muitas histórias rolam, algumas completamente sem graça e que caem no seu ouvido quando o que mais você queria era esquecer qualquer resquício de ziriguiduns e batucadas.
Pena maior eu tenho de quem não gosta de Carnaval e não pode viajar, não tem vídeo e nem TV a cabo em casa. Porque haja enxurrada de Carnaval nas televisões comerciais que usam e abusam da folia, oferecendo uma overdose de gente sem roupa, festival de celulite, pernas, bumbuns e seios de fora, axé music, reco-recos e tamborins.
Faz um mês que tento resolver um assunto sério com duas amigas e que envolve um projeto de nosso interesse. E cada vez que eu toco no assunto, escuto, depois do Carnaval a gente resolve. E eu estou lá interessada em Carnaval? Numa crise financeira que mal dá para comprar dois penachos para se vestir de índio?
Mas eu sei. Carnaval é a festa mais democrática do Brasil, rola Folia de Momo por tudo quanto é canto do País. Rico ou pobre, tanto faz. O ziriguidum ferve e durante quatro dias o Brasil pára. E até aquele que não curte, acaba engolindo o batuque. Fazer o quê?
Eu não me lembro quando foi que deixei de gostar de Carnaval. Mas teve uma época em que não brincar era uma tragédia grega. Aterrissávamos no salão quando o batuque começava e de lá saíamos com o sol nascendo. Já vi cada coisa... Mulher carregando nas costas o marido chegado na birita e que aproveitou para entornar o caneco, tomar todas e cair na vida. No final é aquela velha cena: a esposa voltando para casa mais cedo, com o rosto vermelho de tanto chorar e o dito cujo completamente em órbita.
Mas também já presenciei o contrário. Quer saber? Já vi muita madame perder a pose depois de mamar doses e mais doses de uísque, cerveja, e se duvidar, até de álcool puro. Mesmo porque tem gente que espera o Carnaval chegar para tomar todas...
Na realidade não sei o que foi que aconteceu com o Carnaval ao longo destes anos. Quando olho fotos antigas de meus pais se divertindo na folia, imagino que o clima era completamente diferente, até o pular Carnaval era saudável e as marchinhas eram as mais cantadas. Lança-perfume servia para ser esborrifado nas costas do amigo, não tinha aqueles produtos químicos que hoje fazem mal e confete e serpentina eram o suficente para a diversão da maioria. Até as fantasias eram belíssimas e os concursos levados a sério, com entrega de troféus e tudo mais. Hoje, o que mais se vê no salão é muito pouca roupa.
E não adianta negar. Filho adolescente no Carnaval significa dor de cabeça e muitas vezes confusão. Porque eles vão para farrear mesmo. Além de pular, a moçada adora misturar bebida fermentada com destilada. E dar trabalho para os pais. Depois da confusão armada, ele ou ela passa o resto da noite no banheiro, de preferência de joelhos, chamando o Juca - um amigo comum entre os beberrões. E haja Alka Seltzer e Engov... E os pais acordados: a mãe tratando do filhote e o pai dando o sermão conhecido.
Falando nisso, já que falta poucas horas para o ziriguidum, uns toquezinhos nunca são demais: antes de cair na folia do salão, melhor forrar o estômago, proteína e glicose são indispensáveis. Outra coisa: destilado e fermentado não combinam. E coloque uma coisa na cabeça: gente bêbada é sem graça, ninguém suporta e acaba dando vexame. Outra regra: muito cuidado ao cobiçar o marido ou a mulher do próximo. Já vi muita gente subir nas tamancas e rodar a baiana em grande estilo.
E acredite, ressaca é pior do que a dor do parto. Como ninguém pediu para você entornar o caneco, o problema é todo seu. Trate da ressaca sozinho, fique no escuro com a porta trancada e apareça só quando começar a raciocinar. Antes disso, nem pensar.
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