Esta semana, ao conversar com um leitor que me procurou, fui alvo de pelo menos umas 30 baforadas de cigarro. A pessoa, dominada pelo hábito de fumar, não percebia a gafe que é fazê-lo e ser entrevistada ao mesmo tempo e, o que é pior, infestar o lugar com aquele cheiro horrível de nicotina. Precisei pedir que apagasse o cigarrinho antes que eu tivesse uma crise de tosse, de mal- estar, qualquer coisa do gênero. Vou deixar uma coisa bem clara. Não tenho nada contra quem fuma. Desde que seja bem longe de mim, maravilha.
Acho até que acender um cigarro está ficando tão por fora, que as chaminés ambulantes estão perdendo lugar a cada dia que passa. Não gosto de cigarro, mas o fumante, coitado, vítima do próprio vício, chega a dar dó.
Aí, minhas amigas de longa data vão me questionar se eu por acaso não fumava, vivia pedindo uma tragadinha aqui e ali? É verdade. Na época dos meus 18 anos, eu era boba e não sabia. Porque mulher com aquele cigarrão na mão, eu achava podre de chic e queria fazer igual. Hoje acho tão feio. Mulher fumando na rua, então, pior impossível. Mas tem: quando alguém apaga o cigarro numa planta ou joga o dito cujo dentro da xícara de cafezinho.
Na época de colégio, eu e mais umas outras tontas fumávamos no banheiro da escola, nas esquinas, no quarto. Depois tossíamos, escondíamos a bituca no sutiã, borrifávamos desodorante no ar, abanávamos tudo para esconder a fumaça e vivíamos com chicletes na bolsa. Para os pais não sentirem o cheiro. Quanta bobagem. Com a mesada contadinha, nós dividíamos o maço mais barato e mais forte, os tais ‘‘mata-rato’’ou ‘‘arrebenta-peito’’. Mas a fase passou rapidinho e o bom senso predominou.
Mesmo depois dessa fase cinzenta, a maioria das minhas amigas continuou a fumar. E a lotar o cinzeiro de bituca, infestar o ambiente e com aquele hálito espantar qualquer cidadão no primeiro encontro. Tinha uma que chegava ao ponto de acender um cigarro no outro, sem perceber. E quando as não-fumantes chamavam atenção, era um Deus nos acuda. Depois de 20 anos como fumante convicta, a moça resolveu deixar o hábito. Mas até conseguir se livrar do ritual de acender o tal cigarrinho custou, e muito...
Sumi com todos os cinzeiros da casa. Quer fumar, vai na varanda. Posso ser um corta-barato, mas não me importo. O que não quero é aquele cheiro insuportável tomando conta do recinto, principalmente o cheiro de um cinzeiro cheio de bituca. Que horror.
Não sou nem um pouquinho a favor do fumo. Antes ficava sem jeito de me manifestar em meio aos fumantes ou de levantar qualquer bandeira sobre o assunto. Mas hoje acho que tenho obrigação de alertar as pessoas sobre o mal que o cigarro causa. Porque conheço pessoas doentes em função do próprio vício. É lógico que não saio feito uma barata tonta falando sobre os malefícios da nicotina em qualquer lugar ou quando vejo uma pira olímpica acesa entre os dedos de alguém. E se o fumacê está no auge, caio fora.
Mas quanto tenho chance, dou o sermão antitabagista. Pelo menos para os mais amigos que já estão carecas de saber o que eu penso da ‘‘esquadrilha da fumaça’’. E sei que alguns dão tanta importância ao que falo, que continuam a soltar aquelas baforadas em forma de argolas com o olhar perdido no infinito. Fumante é assim, dono da verdade. Como dizia minha avó, ‘‘numa ponta tem uma brasa, na outra, um tonto’’.
Cobrar de fumantes inveterados é inútil. Sempre argumentam que vão morrer de qualquer jeito e que preferem perder dez anos de vida saboreando um cigarrinho do que viver mais dez sem ter o prazer daquelas tragadas. Acredita que eu já escutei isto?
Estes dias, numa reunião social, me sentei ao lado de uma mulher toda posuda que fumou pelo menos uns 20 cigarros em duas horas. Ela era tão bonita e elegante, que ao acender o cigarro e exalar nicotina por todos os poros, sua pose caiu por terra. Foi um tal de um levantar, outro sair de perto e eu, claro, surrupiar de vez do lado da mulher. Fiquei tão impressionada com aquele ritual de acender um cigarro no outro e de conversar soltando fumaça pelas narinas feito um dragão, que foi me dando uma coisa, um sufoco que precisei de ar puro. Convenhamos, quanta falta de educação desta senhora que soltou baforadas e mais baforadas.
Acender cigarros em carros com ar-condicionado também é um horror. Primeiro porque gentileza é tão importante que não custa nada perguntar se o outro se importa. Se a pergunta for para mim, que vou estar na direção, respondo que sim. Mas caso seja você, talvez diga não. Mas peça para abrir o vidro, aí o fumante talvez se toque e amargue a vontade daquelas tragadas.
Quando converso com um fumante de carteirinha, que insiste em afirmar que é pura conversa mole o mal que o cigarro faz, esqueço o cachimbo da paz. E brigo pelas minhas teses antitabagistas. A pessoa se enche e acaba sumindo do meu lado. Ela e o cigarro, com a graça de Deus.

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