Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Quando fala o coração
Tem acontecido muito comigo. Pelo menos de uns tempos para cá, é o que mais acontece: sigo aquilo que o meu coração grita. Muitas vezes a razão aponta para o caminho oposto, mas nem sei bem por que, acabo cedendo àquele que bate no meu lado esquerdo do peito. E tem dado certo. Tem sido assim na criação dos meus filhos, no batente do dia-a-dia, na escolha dos versículos que coloco na coluna social, na maneira de lidar com as pessoas. E tenho dito que, quando o coração não permite determinada coisa, e aquilo é forte demais, melhor desconhecer a razão e aceitar sem maiores questionamentos.
Foi por isso que deixei de fazer uma viagem maravilhosa ao lado de pessoas que me são por demais queridas, que não permiti que minha filha viajasse nestas férias com uma trupe de adolescentes e que aceitei a vinda do Beethoven para a minha casa - para quem não sabe, Beethoven é um beagle arteiro que adora comer pão de queijo, dormir no melhor lugar da sala, brincar com todos os tênis da casa e fazer sorrir meu filho de 7 anos. Se fosse agir simplesmente pela razão, jamais teria permitido a presença deste mais novo membro da família, que late na porta do meu quarto tão logo o dia amanhece, acordando todos, sem distinção. Só mesmo pelo coração.
Muitas vezes tenho aquele impulso de ligar para uma amiga que não vejo há tanto tempo, porque meu coração está apertadinho de saudades. E aí rola uma conversa boa, que me preenche o dia, me tira o nó da garganta. Porque ao telefone devo falar cerca de umas 50 vezes ao dia. Conversas rápidas, práticas, ligadas ao meu trabalho. E aí, quando a conversa é com alguém que eu gosto e não vejo há um tempão, o bate-papo vira até filosofia. Mas é como eu escrevi: só pelo coração.
Mas quem disse que antes eu não era diferente? Era racional, determinada, sem dar muito lado para esta coisa de sentimentalismo. Tinha o coração mais duro, era menos flexível, procurava colocar a razão nua e crua à frente das minhas mais simples atitudes. Mas, no curso da vida, levamos tantas lambadas, nos decepcionamos com as pessoas da própria família, com gente pela qual tínhamos a mais alta estima, nos doamos para pessoas que não merecem um fio de cabelo e aí, o coração endurece e fica amargurado, pouco importando as atitudes que tomamos dali pra frente. A gente acaba se tornando mais um em meio a tantos: mesquinho, exigente, ruim e... solitário.
Eu acredito que todo mundo passa por um processo destes, num certo momento da vida. E aí chega a hora dos questionamentos, da procura por algo mais intenso ou pelo menos que faça sentido. É quando a razão de tudo vira um grão de areia e o seu coração passa a ser o leme da sua vida.
Eu não me arrependo de ceder aos meus instintos. Porque eles estão diretamente relacionados àquilo que sinto no coração. E hoje já não consigo ficar indiferente a estes apelos. Eles são tão firmes, que pouco me importa a racionalidade da situação. Quando meu coração diz não, é não mesmo. Mas quando ele bate aliviado, é porque diz sim. Aí, confiante no propósito de Deus eu deixo Ele agir.
Tenho amigos que falam que, por besteira, estou sempre perdendo uma oportunidade atrás da outra. De grandes viagens, de conhecer gente diferente, de adquirir coisas novas, de viver situações que só iriam me acrescentar. Que falem. Quem sente isto que eu sinto, entende.
Sabe aquele ditado de que ‘‘coração de mãe não se engana’’? Tem sido assim, não apenas em relação aos meus filhos, mas em tudo aquilo que me proponho a fazer com amor. Pode ser na escolha de um filme na locadora e até no momento da escolha do tema desta crônica.
Tenho procurado buscar dentro de mim as razões que me levam a ser assim e o porquê dos caminhos desta minha transformação. E hoje sei que sou a única responsável pelo que acontece na minha vida. Então não penso e nem questiono muito.
E outra coisa: por pior que seja a situação em que você vive, nunca deixe a dúvida tomar conta de você. Acredite no que seu coração sente e mostra.
Eu precisei apanhar muito e engolir um sapo atrás do outro, quando meu coração pedia para ser diferente e enfrentar determinadas pessoas. E um certo dia o fiz, somente impulsionada pelo coração. Mas é importante perceber que este despertar depende só de você. Aí tudo melhora.

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