Cá pra Nós (Elisiê Peixoto)
Filhos em primeiro lugar
Aceito a sugestão do tema desta crônica dada por uma leitora. E que veio a calhar na atual condição da minha vida. O ato de se doar - sem qualquer cobrança - para os filhos. Porque a gente acha que sempre faz o que está ao nosso alcance e conta, para Deus e o mundo, que filho sempre quer mais, não está satisfeito com a nossa dedicação e que nunca leva em consideração as nossas prioridades. A gente deve se doar, sim, mas não contar vantagem.
Eu achava que fazia muito pelos meus filhos. Sempre trabalhei bastante, buscando oferecer a melhor condição de estudos e de bem-estar. E quando vinha a cobrança da ausência por me dedicar tanto aos assuntos da minha profissão, respondia que aquilo era necessário para a felicidade deles. Que bobagem. Filho precisa de carinho, não de roupa nova. Precisa da presença do pai e da mãe, não de um brinquedo por semana. Filho precisa ser respeitado na sua dor e não ser acalentado com um tapinha nas costas. Porque criança, na maioria das vezes, não fala, sofre calado e expõe a ferida da forma mais comum: agredindo, mentindo, inventando, criando situações. Brigar e cobrar num momento destes é inoportuno e não ajuda em nada. Só piora.
No momento em que minha responsabilidade dobrou tive que fazer um rebuliço na minha vida. Em horários e prioridades. Porque não importa o que aconteça, Roberta e Fernando vão estar sempre em primeiro lugar. Compro as brigas deles, visto a camisa da dupla, se precisar enfrento qualquer parada. E hoje sei - nunca é tarde para aprender - que todo pai e mãe que se preze deve ter os filhos como prioridade.
Tenho vivido, assistido e sentido coisas que me têm servido como aprendizado. De como o ser humano é falho, mesquinho e pobre em suas atitudes. E me incluo neste rol. Porque perdi algum tempo pensando em mim mesma ao invés de estar mais com as pessoas pelas quais daria a minha vida.
Estes dias escutei uma psicóloga afirmar que somos responsáveis direta e indiretamente pelos nossos filhos. Nós optamos por tê-los, os geramos, os colocamos no mundo, os ensinamos e os preparamos para a vida. Eles não pedem por nada disso. Mãe e pai que se preze, vigia. Criança, adulto, casado, solteiro, não importa, é filho, e só por isto basta. Meu pai é assim comigo. Ele me dá a prova: quem ama, cuida.
Passar para outro o problema de um filho, jogar a batata quente na mão de quem não tem nada a ver com a coisa, enconder a cabeça feito avestruz e dizer para o mundo que os filhos são os melhores - só para esconder os erros da criação - é serviço de pai e mãe covardes.
Meus filhos têm um monte de defeitos. Como eu e o pai deles. E cabe a mim, se sou uma mãe dedicada, e ao pai, se é um pai interessado, corrigi-los na medida certa, elogiá-los a cada atitude bonita, incentivá-los nos momentos de derrota, aplaudi-los nas decisões difíceis. E estar presente em todas as circunstâncias da vida.
Meu filho de 7 anos perguntou-me outro dia quando poderia começar ir a pé para a escola, que fica a cinco quarteirões da minha casa. Minha resposta foi certeira e própria de uma mãe protetora que adora tê-lo debaixo da asa: ‘‘Antes dos 15 anos, nem pensar.’’ Para o espanto dele e meu. Com o tamanho absurdo da resposta, acabamos caindo os dois na risada.
Mas ele entendeu a minha resposta imediatista, de quem não pensou para falar. E entendeu ainda mais a vontade que tenho de cuidá-lo nas mínimas coisas. E se sentiu amado, porque me disse isto, naquele mesmo dia, antes de dormir.
Mais tarde analisei, com certa tristeza, que o tempo passa rápido demais. Logo ele não só vai estar indo para a escola sozinho, como também saindo à noite, querendo usar o carro, namorando e ‘‘otras cositas más’’. Que eu vou ter que saber administrar.
Mas não importa, enquanto estiver ao meu alcance e à revelia de uns e outros que acham que filhos devem ser criados conforme as necessidades do mundo - e para o mundo - vou continuar firme no meu ponto de vista, guiada mais pelo coração do que pela razão.
Ser mãe de dois filhos como os meus é privilégio dado por Deus. Precisei passar por um pedacinho doído para entender isto. Mas foi em tempo.
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