Cá pra Nós (Elisiê Peixoto)
Cá pra Nós (Elisiê Peixoto)
Natal sem concessões
No Natal do ano passado prometi e não cumpri. Havia decidido não dar presentes para mais ninguém além dos meus filhos. Mas, um dia antes, foi aquela correria às lojas e acabei gastando o pouquinho que me restava de saldo bancário. Mas neste ano vai ser diferente. Está assinado e sacramentado. Presentes, só para os filhos e olhe lá. Vou enfrentar com a maior categoria aquela tia crica que me cobra tudo, amigos e sobrinhos. Vão ganhar dois beijinhos e um Feliz Natal.
A gente tem mania de viver fazendo concessões a si próprio por medo de causar atrito, de ser mal-interpretado, de magoar um ou outro. Parece que não temos o direito de criar uma rotina própria, um hábito só nosso, completamente adverso àquele praticado por outras pessoas. Como o de dar presentes no Natal. Até parece uma coisa boba, mas esta será uma outra conquista na minha vida durante este ano.
Em primeiro lugar, essa regra adotada em minha casa se ajusta aos novos tempos. Leia-se, dinheiro curto, situação econômica enxuta. Segundo, que estou aprendendo a respeitar as minhas vontades e a liberdade que vem junto com elas. O ser humano, sempre com medo de ficar sozinho, vai aceitando tudo, inclusive restrições à própria individualidade.
Quantas vezes você presenteou ou desejou Feliz Natal a alguém que você tem a maior mágoa, só para não criar mais atrito? Seria muito melhor não comprar nada, abrir o coração, colocar tudo em pratos limpos e, aí sim, dar um abraço afetuoso. Atitude mais correta, impossível.
Eu tinha a mania de fazer coisas contra minha vontade porque, na verdade, morria de medo de arcar com as consequências. Engoli tanto sapo na minha vida e perdi tantas oportunidades de ser mais livre e feliz - resultando num pacote de tristeza e frustração - que hoje tenho a plena convicção que só faço concessões para aqueles que amo de verdade e que sei que também gostam de mim. Não temo mais a rejeição e muito menos aquilo que as pessoas julgam. Quando fazemos a coisa certa, respeitando a própria individualidade, ficamos com aquela sensação de tranquilidade e acabamos experimentando um prazer único.
Assim, neste mês não vou sair feito um furacão pelas ruas comprando presentes de última hora, pagando mais caro, só para agradar. E, muitas vezes, agradar até quem não merece. Podem vir cobrança das crianças, toques sutis dos amigos, que meu 13º salário já tem destino certo.
No último Natal, nesta história de temer o que os outros vão pensar, acabei comprando a lembrança errada denunciada pela expressão do presenteado, que ficou com aquela cara de mamão-macho e soltou um muito obrigado não convencendo nem a madre superiora. Convenhamos, é muito chato ganhar alguma coisa da qual não gostamos nem um pouco. E é pior ainda para a pessoa que presenteou perceber que não agradou.
Meu filho de 7 anos, em função até da própria idade, estava com a maior paranóia em não dar presentes para os amiguinhos, avós, etc. Explicar que isso não era o mais importante levou tempo. Na verdade, ele - como nós adultos - teme as críticas diretas, tem medo do abandono, de ficar de escanteio. Nós temos medo até do julgamento moral. Quem bobagem. Como se alguém vivesse a nossa vida e pagasse as nossas contas.
Aí meu filho entendeu que o melhor presente é aquele que ganhamos sem esperar e que até pode ser feito por nós mesmos. Foi um tal de fazer desenhos, colagens, bonecos de massinha, bandejas pintadas à mão. Pronto, toda a família está presenteada.
O melhor presente de Natal que ganhei neste ano veio antecipado. E foi dado por três amigas que vão morar no meu coração eternamente: Alba, Nilce e Cássia. Não foram presentes materiais, mas foram especiais, daqueles que você carrega dentro da alma. E o que é melhor, elas não precisaram fazer concessões a si mesmas, não tiveram que gastar dinheiro, não precisaram se defrontar com as lojas cheias de gente. E sabiam desde o começo que iriam me agradar.
Estas minhas antes conhecidas, hoje grandes amigas, ajudaram no meu crescimento espiritual, me mostraram o caminho do qual eu havia me distanciado. E com esta convivência pude avaliar que não devemos arquivar concessões e restrições em nossas vidas, por menores que elas sejam.
Fazer o que nos dá bem-estar, o que nos dá prazer, o que alivia o coração e a alma agrada acima de tudo a Deus. E nada é mais importante que isto.
Então, quem gostar de mim de verdade, vai adorar ganhar um beijo e um abraço. E um Feliz Natal daqueles bem sinceros.
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