Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Sofrendo com a timidez
Durante minha adolescência convivi com uma amiga que era o retrato da timidez. Apesar do tamanhão todo - mais de 1,70 m - e de aparência dominadora, bastava um elogio, uma saia-justa qualquer que as bochechas desta amiga queimavam, ficavam vermelhas. E se a coisa se estendesse mais um pouco era o suficiente para as mãos da moça ficarem geladas.
Eu, que também não sou nenhum exemplo de extroversão - se for na minha casa ou na redação do jornal, maravilha, mas fora desses territórios quase viro um freira carmelita - ficava morrendo de dó dessa amiga porque lidar com a timidez é coisa dura. Na maioria das situações, o tímido chega a ter palpitações, as pernas bambeiam, ele emudece e fica com aquele olhar de peixe morto querendo sumir do pedaço. Cada situação que Deus me livre!
Eu sei porque comigo é assim também. Numa mesa recheada de gente com quem não tenho afinidades, quase não converso e me sinto muito pouco à vontade. É desagradável porque as pessoas interpretam de outra maneira. Julgam o tímido antipático, mal- humorado e, em outras vezes, caipira.
Essa minha amiga custou para arrumar um namorado. Mas acabou se casando com sua cara-metade. Tão tímido quanto ela. Aí, tudo foi acontecendo bem devagar e do jeito que se permitiam. Estão juntos até hoje e felizes. Mas continuam tímidos e de poucos amigos.
Desde que me conheço por gente sofro com esta minha timidez bem disfarçada. Minhas amigas costumam dizer que eu não me abro, não confio, que gosto de lugares menos badalados e que sou de pouca conversa. E é isso mesmo. Tem lugar que me faz sentir como se estivesse em meio a um terremoto. Basta uma cratera se abrir que eu pulo dentro. Sou colunista social e adoro o que faço. Mas nem por isso sou a pessoa mais aberta e solícita.
Todo tímido morre de vergonha de paquerar e ama platonicamente. Tem poucos amigos, e até para apresentar um trabalho em sala de aula sofre de insônia durante uma semana. E foi assim comigo na época da faculdade, em que deixava de ganhar boas notas por não responder às perguntas do professor. De pura timidez.
Reconheço que já melhorei uns 50%. Até escrever esta crônica, hoje eu o escrevo numa boa. Mas falar em público, só em raríssimas exceções. A boca seca e lacra. E, como já aconteceu, fico mais perdida do que cego em tiroteio, olhando para o nada e meus ouvintes observando e esperando a múmia se manifestar.
Por isso acho lindo gente falar em público com a maior categoria. Dar palestras, conferências para mais de mil ouvintes. Até gente que reclama seus direitos de consumidor, eu acho o máximo. Até reclamo, mas eu sei o quanto isso custa para mim.
Sou solidária com os tímidos porque sei que, na maioria da vezes, eles têm dificuldade de partilhar os problemas e até de dividir responsabilidades. Eu sempre acabo pensando melhor deixar pra lá que dou um jeito sozinha. E muitas vezes não dou não. Encontro barreiras até para desabafar um problema e acabo pecando pelo excesso de autocrítica. Prefiro escrever mais de mil linhas num canto do que falar cinco minutos em público.
Por algum tempo agi como avestruz que esconde a cabeça pra vida a fim de evitar constrangimentos. Mas isto só me afastou de grandes oportunidades da vida. A reviravolta foi dada na maturidade e nas lições que a gente aprende. E tem sido com muito esforço que não perco mais as oportunidades. Mesmo quando as pernas tremem mais que vara de bambu, encaro a situação, com a ajuda de Deus.
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