Cá pra nós Elisiê Peixoto
Até um tempo atrás, ai de quem pisasse no meu pé. Para fechar o tempo era uma questão de minutos. E se alguém insistisse em me cutucar com vara curta, não fechava só o tempo, também dava um jeitinho de colocar de escanteio e apagar da memória a tal pessoa. E foi assim por muitos anos, porque me permitia viver bem naquela situação, independentemente do que o outro sentisse. Mas a vida ensina, e nunca é tarde para aprender. Ou para saber aceitar com humildade os erros e as imperfeições das pessoas, e também aprender a respeitar diferentes códigos de valores.
Uma vez escrevi e volto a reforçar, que nós costumamos julgar correta a atitude de outra pessoa quando ela age exatamente da forma que nós agiríamos. E quando ela age diferente, nunca levamos em conta uma série de fatores que fizeram com que a tal pessoa agisse daquela maneira. E quem somos nós para julgar? Então precisamos aprender a perdoar.
É claro que ninguém aguenta desaforo o tempo todo sem nunca se manifestar. E também é difícil voltar a confiar em alguém que um dia nos enganou ou nos passou para trás. Como sobreviver a uma traição? Como perdoar a mentira de uma amiga? Como esquecer um boato levantado por alguém tão próximo a nós? Muitas vezes convivemos anos a fio com uma pessoa e, em dado momento, ela pode nos surpreender, causando a maior decepção. Mas quando nos propomos a passar uma borracha no passado, acredite, tudo fica mais leve.
Perdoar é possível, sim. É um exercício diário que requer boa vontade, uma conversa franca, um coração aberto e a certeza de que um simples pedido de perdão é capaz de remover montanhas.
O rancor que fica nos remoendo não faz bem para a saúde ou para a alma. Perdoar é uma atitude nobre porque mexe com valores, auto-estima, sentimentos. Mas depois que perdoamos, a sensação é de que conseguimos o impossível e isto dá um tremendo bem-estar. Perdoar faz a gente se sentir liberto.
É tão fácil criticar. Mas quando determinadas situações pintam na nossa vida, da maneira mais inesperada possível, é que olhamos para trás e enxergamos quanta bobagem foi dita e pensada. E como nos envergonhamos. Aí é a vez de nos desculparmos. Mais difícil de perdoar, é pedir para sermos perdoados. É necessária uma boa dose de humildade e isto pouca gente tem.
Conheço pessoas orgulhosas, que acham que se bastam, que não precisam de ninguém, que vivem sós e vão muito bem obrigado, mas que sofrem pelo tamanho do orgulho e do egocentrismo. E acabam sozinhas, não perdoam e são totalmente incapazes de pedir perdão, mesmo sabendo o tamanho da culpa.
Pessoas assim pagam um preço. Os amigos, os filhos e a família se afastam gradativamente. Mesmo assim ainda resta uma única esperança. É quando se chega ao fundo do poço e o pedido de ajuda é inevitável. Talvez seja esta a grande chance que Deus nos dá para perdoar e sermos perdoados.
Que perdoar é uma atitude digna, todo mundo sabe. Mas e as coisas lá dentro como é que ficam? Perdoar da boca para fora é fácil, mas conviver com o perdão no fundo do coração cada vez que você encontra alguém que lhe fez tão mal, vale mais que tudo.
Não é tarefa fácil sorrir para aquela pessoa que lhe prejudicou no emprego, olhar nos olhos do namorado ou marido que lhe traiu, passar a mão na cabeça daquele outro que lhe caluniou. Mas é possível, mesmo que o perdão demore a chegar. Acredite, depois tudo começa a fluir de maneira simples e fácil na vida da gente. As coisas grandes para os outros tornam-se tão pequenas aos nossos olhos, que são poucas as atitudes que nos chateiam. Aprendi que perdoar, antes de mais nada, desenvolve o nosso bom humor, não dá insônia e rejuvenesce. É isso aí.
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