Cá pra nós (Elisiê Peixoto)
Cá pra nós (Elisiê Peixoto)
Ceder é preciso
Que tudo na vida tem sempre uma primeira vez, isto é óbvio. Até colocar sua cara-metade para fazer algumas tarefinhas caseiras ou, no mínimo, fazer com que ele colabore com a dona do pedaço, facilitando a vida de todo mundo. A vida em comum é difícil, isto é fato. Conviver com as diferenças de seu marido, ou da sua mulher, exercita a paciência. Então, fechar os olhos para aquela malcriação e contar até 100 antes de dar uma boa resposta, muitas vezes dá bons resultados. E até faz a gente dar valor ao que tem em casa.
Agora, poupar sua cara-metade de tudo e dar uma de insubstituível, é burrice. Duvideodó que qualquer marido valorize a dupla jornada que a esposa tem. Porque a mulher moderna trabalha, divide com marido as despesas, cuida dos filhos, da casa, faz supermercado e ainda malha para não se trocada por um broto.
Quando se gosta de uma pessoa, logo no início do relacionamento tudo é um mar de rosas. Tanto faz se ele vive se atrasando para os compromissos, se não gosta de festas - e você adora, se vive deixando vestígios de pasta de dentes na pia, cabelos nas escovas, xampu sem tampa, roupão molhado sobre a cama. A gente passa por cima até da inundação do banheiro que ele deixa após tomar banho, da conversa em voz alta ao telefone, enquanto você assiste à sua novela preferida, das baforadas que ele solta ao seu lado - logo você, que é uma antitabagista de carteirinha - e se continua com a eterna mania de roubar todo o cobertor enquanto você dorme. No começo, essas diferenças são encaradas como detalhes sem a mínima importância. Mas é bom os apaixonados saberem que existem coisas que só fazemos depois da trigésima nona manhã a dois. Caso contrário, espantam. Desleixar de cara, logo no início, é fim de papo.
Mas com o passar do tempo a coisa vai tomando outro rumo, até que sem mais nem menos, um dos dois chuta o balde. E, na maioria das vezes, pelo motivo mais bobo do mundo. Briga-se feio até porque um dos dois bateu com força a porta do carro: Na sua casa não tem geladeira, não? Pronto. Está deflagrado o bombardeio.
Escuto há anos que os opostos sempre se atraem. Não entendo bem o porquê da coisa, mas a verdade é que os opostos se atraem, sim, mas nem por isso combinam. E daí? Fazer o quê, depois que passa aquela fase de paixão ampla e irrestrita e quando o cotidiano invade seu dia-a-dia e você começa a se irritar com o cinzeiro cheio de tocos de cigarros, da garrafa dágua fora da geladeira, da bagunça sem limite no quarto?
Marido e mulher desperdiçam tantos anos tentando fazer do outro uma pessoa semelhante, como se fossem conseguir alguma coisa. Mas ninguém muda. Pode até melhorar um pouquinho, mas não muda.
Morar junto, homem e mulher, é um desafio diário. E a gente sabe que ceder não é tarefa fácil. Tem homem que quando pede alguma coisa para a mulher, na primeira oportunidade cobra. Tem namorada que, de cara, exige tudo e acaba com a relação com uma cajadada só. Tem esposa que reclama da hora em que se levanta até a hora em que vai dormir. Qual marido suporta?
Acho que fechar os olhos de vez em quando, contar até 100 e fingir que não escutou determinadas abobrinhas, ajuda a tocar o barco mesmo quando a maré tá alta. Mas só de vez em quando, senão vira malandragem e um dos dois acaba virando a mesa.
Uma coisa é certa: homem ou mulher que vivem amargurados, com raiva porque a toalha molhada continua em cima da cama ou porque um invadiu o guarda-roupa do outro, recebem de presente uma resposta atravessada e mais adiante, uma gastrite. É claro que os bons modos que aprendemos na infância devem ser conservados. Mas aprender a conviver com alguns escorregões também não é o fim do mundo. E sabe o que mais? Ceder e fazer vista grossa vez ou outra é prova de amor e de que se quer continuar vivendo junto. Tenho uma amiga que é feliz no casamento e dá a receita: de vez em quando não escuta, não fala e não vê. E quando o outro começa a folgar demais, chama para uma conversinha. Assim, quando se respeitam os direitos do outro, fica-se em muito boa posição para exigir o que é nosso.
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