Na maioria das vezes sou decidida e ‘‘sem rodeios’’ para um montão de coisas, mas falar ‘‘não’’ quando me pedem algo é sempre difícil. Principalmente quando me solicitam qualquer coisa emprestada. E com gente assim, ‘‘pidona’’, eu topo três por quatro. Já emprestei desde taças de cristal Bacarat, que herdei da avó, até um sutiã lindo, maravilhoso e importado, devolvido um mês depois em frangalhos.
Sempre fui mestre em emprestar tudo. Até mesmo quando a vontade era de gritar não, não e não. Mas fazer o quê, quando aquela amiga te pede uma bolsa, dias depois telefona pedindo uma roupa, e na semana seguinte pede seus brincos preferidos? Acabo emprestando.
Talvez você não saiba, mas o hábito de pedir tudo emprestado é um vício. Têm pessoas que passam a vida indo a festas com roupas dos outros, emprestando o telefone celular dos amigos na maior cara dura, pedindo arroz, feijão, liquidificador e batedeira do vizinho a torto e direito. E não devolvem. Uma pessoa dessas é de matar! Se eu fosse contabilizar o tanto de CDs que já emprestei sem volta...
Mas estou começando a aprender. Ou, pelo menos, a solicitar de volta. O último objeto que emprestei foi uma frasqueira. Que só lembrei de pedir de volta uma semana antes de viajar. Mas esta voltou inteirinha, nos trinques, como emprestei. A mesma sorte não teve uma mala cedida a uma conhecida que se mandou para a Europa. A mala foi jogada no compartimento de carga de meia dúzia de aviões diferentes, rodou meio mundo em 40 dias, foi jogada daqui, dali, aberta em nem sei quantos países. E sempre estufada de tanta quinquilharia. Voltou pra casa um trapo. Antes não tivesse voltado.
Outra vez me levaram um brinco com qual sonho até hoje. Comprado num mercado de rua em Marrocos, era diferente de tudo o que sempre vi. Não custou caro, mas era especial e eu dancei. A pessoa que levou o par de bijoux jura por todos os santos que me devolveu. Faço o quê com uma doida dessas?
É possível até perder um grande amigo por causa de qualquer coisa emprestada. E determinados objetos não se emprestam. Como, por exemplo, batom, escova de cabelo, cosméticos de modo geral. As pinturinhas podem retornar, todas, pela metade, leia-se ponta de lápis quebrada, batom amassado, blush esparramado. Aprenda que nem todo mundo é cuidadoso como você. Nem foi criado assim. E depois, convenhamos, artigos pessoais devem ser emprestados apenas entre mãe e filha. Entre pai e filho. E olha lá.
Emprestar dinheiro é perigoso. Principalmente para amigos, que amanhã podem se tornar seus maiores devedores. Também não peça um tostão. Penhore a cueca se precisar, mas não peça dinheiro emprestado. Coisas do gênero, só entre pai e filho.
CD não se empresta. Disco é algo pessoal, que deve estar lá, no lugar certo e na hora certa, no momento em que você está a fim de afogar as mágoas e escutar uma música especial. A mesma coisa em se tratando de livros. Que devem ser emprestados apenas entre pessoas que têm o mesmo hábito de ler. Aí é feita uma troca de obras literárias.
Telefone celular também entra nesta lista de coisas que só devem funcionar na mão do dono. É um artigo pessoal, é caro, e não está à disposição de todo mundo. Só em caso de vida ou morte. Melhor cada um ter o seu e deixar quieto.
Mas o principal de tudo é dizer não. E há jeito de negar sem ofender. Não empreste para não passar raiva e depois ficar se remoendo de ódio. Só em último caso e para aquela pessoa que te respeita e te quer muito bem. O suficiente para te devolver a peça rapidinho e nos trinques.
E-mail:[email protected]

mockup