Cá Pra Nós
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de junho de 1997
Elisiê Peixoto 
Arquivo FolhaDou um doce para a mulher casada, com filhos e com dupla jornada de trabalho que nunca, nunquinha, tenha se arrependido - mesmo que por alguns milésimos de segundo - de estar na atual situação: com uma aliança brilhando na mão esquerda, com a dupla dinâmica brigando pela única lata de coca na geladeira, com o cesto da lavanderia abarrotado de roupa suja, no dia em que a secretária-mor não veio, e com o marido - seu doce amor -, desmontando o computador em cima da sua mesa predileta. Aquela que você comprou num antiquário, custou os olhos da cara e que ainda está sendo paga. Dá pra ser feliz?
Quando digo para a minha filha que a melhor fase da vida é esta em que ela está, com as chances de errar e acertar, recebo um olhar desconfiado e com um leve sorrisinho de quem pensa que a juventude é eterna. Definitivamente, o tempo de solteirice - quando as únicas preocupações eram as festas de final de semana e o telefonema do namorado que não acontecia -, vez ou outra aparece na nossa frente como num cinema em terceira dimensão.
Bem-casada ou não, com ou sem filhos, qual mulher nunca sentiu saudades daquela época em que apenas éramos chamadas para almoçar e jantar - sem saber qual o menu do dia -, quando as únicas cobranças e puxões de orelha eram por causa do telefone ocupado full time , quando lagarteávamos ao sol na pior hora do dia. E podia o rei da Árabia Saudita falar que fazia mal, que nada nos convencia do contrário.
Mesmo as mais modernosas, que ao invés de véu e grinalda simplesmente resolvem dividir o edredom com o namorado, devem ter um dia em que acordam, olham do lado e pensam: O que é que eu estou fazendo aqui?
Cuidar de casa, ser motorista de filho e agradar ao marido naquele dia em que o mau humor matinal é óbvio são detalhes que acompanham o casamento. Por mais perfeito que o casório seja haverá um dia em que o marido estará a fim e você não, outro em que terá que esboçar um sorrisinho de aeromoça quando a vontade é pular no pescoço da cunhada, e outro ainda em que a vontade de despachar os filhos para a conchinchina será mais forte do que tudo.
Hoje sei que os momentos mais preciosos do dia - e raríssimos -, são aqueles em fico só, num silêncio absoluto, sem televisão e som ligados, sem telefone tocando, sem aquele barulhinho infernal dos jogos de videogame. É quando tenho uma leve sensação de liberdade, a mesma que tinha há 16 anos e não valorizava. Então, quando fico sozinha no meu casulo, só penso nas coisas boas, me reabasteço de paciência, deixo de lado qualquer crise existencialista e me preparo para outra jornada.
Não dá cinco minutos e meu pequeno - com dois amiguinhos inseparáveis -, entra porta adentro gritando por mim, minha filha liga o som e corre para o telefone, a empregada cruza os braços e pergunta o que servir no jantar. Tudo ao mesmo tempo. Parece que um tornado passou pela sala. Já vi este filme.


