Cá Pra Nós
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de janeiro de 1999
Elisiê Peixoto 
Hoje é dia de falar bem das mulheres. Porque somos mesmo o máximo. Escrevo com autoridade sobre o assunto porque ao me ver do dia para a noite com a responsabilidade dobrada em todos os sentidos da vida - principalmente em relação aos filhos e à casa - fico pensando que só mesmo uma mulher é capaz de continuar dando novas respostas para velhas questões.
É mais do que sabido que a emancipação trouxe para nós, mulheres, um monte de tarefas nada fáceis de conciliar e que aprendemos num zás-trás. Casa, trabalho, supermercado, empregada, escritório e educação dos filhos são itens que na maioria das vezes são iguais a nada para os homens. Poucos, ainda hoje, valorizam uma mulher a peso de ouro. Todo esforço feito por nós passa batido, completamente invisível aos olhos deles. A supermulher atual precisou assumir esta posição. Precisou sacudir a poeira e ir à luta, dar um basta a diversas questões preconceituosas. A mulher aprendeu depressa a fazer o que o sexo masculino fazia. E com tantas responsabilidades ainda temos ânimo para ser vaidosas, cuidarmos do visual, colocar um sorriso no rosto e fazer o impossível para conciliar aquele tanto de tarefas.
Escolher por uma vida profissional intensa, muitas vezes, não é uma questão de opção. A mulher atual colabora financeiramente, e muito, numa casa - eu pelo menos sempre precisei trabalhar -, é cobrada pela família quando algo não vai bem com o emocional dos filhos e ainda escuta cobranças do marido pela falta de companheirismo. E quando os cartões de crédito começam a vencer? A verdade é que para muitas de nós, falar em opção é utopia. A sociedade de consumo não permite que um dos pares deixe de trabalhar. Teve uma época na minha vida em que tudo o que eu mais queria era curtir meus filhos. Poder sair com eles no meio tarde, não me preocupar com o saldo bancário, ter o pai deles no final do dia para falar sobre as questões mais banais como a tarefa do filho menor e o desabrochar de uma criança que, do dia para a noite, se tornou uma menina-mulher. Não vi minha filha se tornar esta adolescente responsável, que hoje repõe minhas energias com conversas de gente grande. Roberta é uma graça.
Durante muitos anos a mim não foi possível nenhuma dessas situações. E que continuam a ser impossíveis para muitas mulheres da minha geração. Por isso me solidarizo com todas aquelas que sempre fizeram muito, mas continuam cobradas pelo pouco que os companheiros, ou seja lá quem for, acham que elas fazem. Volto a afirmar que nós somos muito pouco valorizadas e respeitadas também. Merecíamos se tratadas como jóias raras. Sempre digo aos meus filhos que uma boa mãe é, com toda certeza, uma excelente mulher no sentido de caráter. Daquelas que procuram viabilizar com eles um jeito de realizar seus sonhos. E afirmo que em qualquer profissão, para se atingir metas, é necessário dedicação. Sabedoria as mulheres têm para estar sobre as ondas do mar. E mesmo que às vezes nos sintamos afogadas, também sentimos a força de Deus para nos impulsionar novamente à superfície e respirar. Tem sido assim comigo depois de tantas decepções.
Sempre fiz questão de me valorizar. Como esposa, mãe, dona de casa e profissional. Ninguém faz isso pela gente. E basta um escorregão nosso para o dedo indicador de muitos te denunciar. Aprendi que o nosso maior adversário está dentro de nós, nos puxando para baixo. E se você deixar, inesperadamente, estará no fundo do poço. Aliar diversas responsabilidades e ter que conviver com isto no dia a dia só me provou uma coisa: sou uma mulher batalhadora, e Deus me deu sabedoria e continua me dando para não colecionar derrotas. Mas isto faz parte da fé que coloquei no meu trabalho, no relacionamento com meus filhos, nas boas amizades. Nunca é tarde para aprender.
A emancipação da mulher não veio apenas das concentrações operárias surgidas há anos, na queima de sutiãs em praça pública. É algo muito mais forte, que vem do berço. Quando a minha filha nasceu, o que eu mais desejei para ela foram duas coisas: saúde e determinação para encarar com sapiência as atribulações que a mulher moderna enfrenta. Para ser respeitada e valorizada em todos os sentidos. Para se fazer ouvir em qualquer momento e se opor sem medo quando for a questão. E para que homem algum coloque abaixo sua auto-estima. Porque escrevo isto com a experiência de quem já sentiu na pele: querer bem a si mesma, assim como o amor, é fundamental para que as feridas da alma sejam curadas. Mulher nenhuma deste mundo deve perder sua auto-estima. Você pode estar com o coração dilacerado, mas entregar os pontos, nunca. Porque somos especiais e estamos sempre colhendo frutos da árvore que plantamos ao longo da vida. E por mais emancipada, dona da situação e esforçada que a mulher seja, sem auto- estima a angústia bate à porta no domingo à noite.
Vire a página do livro e se faça respeitar. A mulher que se gosta quase sempre tem um sorriso cativante, olhos brilhantes, pele de seda e é dona de um olhar que arrebata corações. E precisa mais?
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