Cá Pra Nós - Elisiê Peixoto
Cá Pra Nós - Elisiê Peixoto
Sábado no Parque
Está longe de ser uma das coisas que mais gosto. Mas quando se trata de trabalhar e não de passear na Exposição Agropecuária, tudo vira água com açúcar. Para nós, jornalistas, a Feira é um prato cheio porque tem de tudo. E é também o lugar mais democrático do pedaço. Você encontra desde uma autoridade até o vendedor de churros. A patroa se encontra no Pavilhão Internacional com a empregada, o empresário com os funcionários. Uns vão para acompanhar os leilões de gado, outros para comprar, e a maioria, com o dinheiro contadinho, para comer maçã do amor - única oportunidade - e andar em dois ou três brinquedos. Outros, apenas para apreciar tudo. De longe.
Não sou fazendeira, não consigo distinguir capim napier de cana fina, muito menos plantio de milho comum de uma plantação de milho-pipoca. Boi, para mim, é tudo igual. Mas apesar de não ser do métier, gosto de estar lá, porque encontro amigos que não vejo há muito tempo, encontro pessoas sui generis, gosto de levar o Fernando no domingo, para passear no parque e almoçar. Adoro uma maçã do amor - quanto mais caramelizada melhor, daquelas que deixam a boca lambuzada de vermelho; churros - daqueles bem recheados; e coquinhos açucarados, que só de olhar engordam alguns quilos consideráveis. E fuço tudo quanto é estande para descobrir algo interessante que possa render uma boa matéria.
O bom em exposição é você poder andar à vontade, leia-se camiseta, jeans e tênis. A gente nem vê mais aquelas produções que algumas mulheres insistiam em mostrar: calça, calcinha, sutiã, cinto e blusa de couro, brincos enormes que imitam uma cara de cavalo, botas com esporas e aqueles chapéus enormes. Deve dar uma mão-de-obra combinar tudo, entrar na calça justíssima, apertar o cinto sem deixar a dobra da barriga pular pra fora e depois sentar para calçar a bota. Coisa difícil suar sob todo aquele aparato e manter a pose. Mas hoje, poucas senhoras abusam desse visual demodé.
Também já vi gente, que não tem um centímetro de pasto, aparecer na Exposição caracterizada de pecuarista dos pés à cabeça. É, ainda existem algumas coisas do gênero.
Tem gente que ama a Exposição Agropecuária. E tem gente que, decididamente, não suporta. Mas, mesmo assim, tira umas poucas horas para acompanhar os filhos na Feira só para poder dizer que foi. Depois, tem que levar a criançada no parque. Eu, quando vou, fico por conta deles. Me abasteço de reais trocados e de muita paciência porque quem tem filho sabe: eles querem andar em tudo, até naqueles brinquedos horrorosos em que o estômago vira do avesso. Exerimente o Over the Top.
A Roberta não volta para casa sem comprar alguma bugiganga na Feira. Pode ser uma tiara ou uma camiseta com a foto impressa do Leonardo DiCaprio. E sempre pede aquela bola enorme que, dentro de apartamento, se transforma num trator. Até hoje nunca comprei e tenho resistido bravamente. Depois da festa, a volta ao lar, o tráfego. Melhor não comentar.
No resto da semana vou à Feira para trabalhar. Aí, é a minha vez de gastar a sola dos tênis, subir e descer as ruas do parque, encontrar com todo mundo, parar, entrevistar, fotografar, escrever e distribuir o material. Mas não deixo de me deliciar com os coquinhos da barraca do seu José e da dona Maria e de assistir ao finalzinho dos shows.





