Cá pra Nós - Elisiê Peixoto
Estes dias, lá em casa, foi a semana do não. Precisei dar vários bastas ao Fernando, meu filho de 8 anos, que de uns tempos para cá tem se julgado muito auto-suficiente, galinho de briga e dono da verdade. Na verdade precisei ter uma conversa séria e responder com firmeza e determinação a todos os seus questionamentos, que em alguns momentos chegaram quase, quase, a me tirar do sério. Mas meu filhote é apenas uma criança. E que precisa de compreensão. Se ele tem tido atitudes não comuns a sua personalidade é porque, com certeza, está pedindo limites.
Ser mãe é tarefa difícil, apesar de compensadora. Mas no momento em que você bate de frente com os problemas próprios da idade dos filhos - que vão crescendo e cada vez mais precisando da gente - entendo que, como eu, você fica assustada e achando que não vai dar conta do recado. Mas damos conta, sim, de alguma forma. Porque ninguém melhor para entender um filho do que aquela que o gerou ou que o criou, ali, juntinho, todos os dias, de manhã, a tarde e a noite.
Com os pais com quem converso percebo que a reclamação é sempre a mesma. Os filhos exigem sempre mais, enquanto os pais regulam a quantia a eles destinada. Os filhos acham que um não é o fim do mundo, muitas vezes reagindo com agressividade, dando a impressão que são as crianças e adolescentes mais injustiçados do planeta.
Eu concordo com a tese de que somos muito influenciados pelo meio em que crescemos. Nossos filhos são educados muito mais pelo que observam do que por aquilo que escutam de nós, que sempre estamos aconselhando, mostrando o certo e o errado, querendo que eles acertem sempre. E com uma única intenção: que sejam felizes. Mas sabemos que nem tudo acontece da forma que desejamos e planejamos para eles. Mesmo assim temos que dar exemplo.
A maioria das pessoas tem propensão em levar vantagem. Eu presencio isto diariamente e, muitas, vezes vejo que estas mesmas pessoas, até do nosso convívio, têm também a propensão para uma relativa falta de sentido moral em tudo. Aí você fica meia hora explicando para os filhotes o que é certo e honesto e, passados dois minutos, eles já se esqueceram de tudo. E erram novamente.
Há muitos filhos que vêem seus pais e seus irmãos se vangloriando do mal que fizeram para outras pessoas ou até da vantagem que tiveram sobre as mesmas e de como tudo aquilo deu lucro. É claro que mais tarde vão fazer exatamente o mesmo porque o exemplo é dado em casa. Se embutirmos na cabeça dos nossos filhos que fama, dinheiro e sucesso são as molas propulsoras do bem-estar, não podemos esperar que essas mesmas crianças se debrucem sobre os livros e se tornem exemplos de alunos na escola.
Os filhos fascinam-se exatamente pelas mesmas coisas que percebem ser valiosas dentro da própria casa. Se formos materialistas e apegados ao dinheiro tão-somente, sempre voltados para o sucesso e as glórias, os filhos só vão pensar nisto. E aí, mais tarde, choramos porque não soubemos educá-los.
Escutei de um psiquiatra que todo adolescente, quando começa a se manifestar de maneira errada, é porque no íntimo grita por limites que muitas vezes passam despercebidos para os pais.
A indolência, o pouco caso para com tudo e para com todos é um exemplo disto. Quando minha filha adolescente se pendura ao telefone ou passa horas em frente à televisão, sem tomar qualquer iniciativa - a não ser aquela de apertar os botões do controle remoto - é hora do basta. Porque preguiça e materialismo andam juntos.
Se seu filho quer tudo na mão - e tem - sem precisar batalhar por qualquer coisa que for, é sinal de que ele precisa urgentemente de limites. A indolência pode levar a uma conduta errada.
Eu dou os bastas na minha casa sem o menor sentimento de culpa. Porque eu sei que se não for assim, serei responsável efetivamente por algum dano ou sofrimento mais tarde. E deve ser muito ruim os pais se sentirem responsáveis e culpados por atitudes insensatas dos filhos.
Me curvar à tristeza ou à cara melancólica dos filhos, é algo que não faço há muito tempo. E chantagem emocional também não tem vez lá em casa. Quando os filhos querem impor suas vontades sobre os pais que não têm forças para reagir à pressão e possibilitam tudo, os papéis dentro de casa se invertem.
As atitudes em relação aos meus filhos, os bastas semanais, as conversas sérias e os puxões de orelha servem, antes de mais nada, para eles entenderem que não podem ultrapassar meus direitos, sou a mãe deles. Estes devem ser respeitados em primeiro lugar.
A gente deseja que os filhos nunca tenham condutas que machuquem o próximo. Que não sejam egocêntricos ou egoístas, mas que sejam generosos, bons, educados. E é por esta razão que não se deve ter sentimento de culpa quando eles nos acusam de tudo e fazem aquela chantagem emocional que não convence sequer a madre superiora.
Até um tempo atrás, meu caçula, a fim de impor sua vontade, exagerava na encenação. Hoje ele entende que não é não. Fica emburrado, bate a porta e depois de cinco minutos esquece tudo.
E é assim que deve funcionar. Não se deve abrir mão de certos valores ou de algo que possuímos apenas porque um filho quer.
Sempre digo a Roberta e ao Fernando: dou bastas porque os amo demais.
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