Cá Pra Nós - Elisiê Peixoto
Encontrei com um amigo da época de faculdade durante esta semana. E foi muito bom. Relembramos tanta coisa e constatei mais uma vez, e com certa tristeza, que a vida passa rápido demais. A gente cria tanto problema e deixa de simplificar tanta coisa. Como voltar no tempo não é possível, mas reparar alguns erros ainda é, melhor tocar a vida sem maiores questionamentos.
Quando estudantes, várias vezes após a maratona de aulas nos encontrávamos no mesmo local. Era o combinado, fizesse sol ou chuva. No finalzinho da tarde, cada um pegava o mesmo caminho e se encontrava no barzinho do seo Tonho, um lugar sem qualquer resquício de requinte, e que era a cara do dono: simples, bem-humorado e com muita categoria, como o próprio gostava de frisar.
E como sonhávamos...Era uma tempo em que os projetos de vida estavam sempre presentes, decididos, idealizados e ao mesmo tempo distantes. Porque assim como eu, todos os que estavam sentados naquelas cadeiras mancas ao redor daquela feia mesinha de ferro achavam que nunca deixariam de ter 20 anos. Ou que pelo menos, aqueles 20 anos iriam se prolongar para sempre. Quando se é jovem, 30 anos significam algo tão distante da realidade...
Sentados naquelas cadeiras desconfortáveis pedíamos cerveja e pasteizinhos recheados de vento, além de porções de tudo o que seo Tonho servia, preparados por dona Judite, esposa e braço direito do dono do botequim. A gente conversava alto, sem dar a menor importância para as outras pessoas que lá estavam. Porque nada era segredo, nada tinha muita importância.
E como era bom se sentir segura ao lado daquela rodinha de amigos. E de estar naquele lugar sem o menor padrão de refinamento, sem pompas e frescuras. Bons tempos... Escrevo isto porque hoje vou a festas em que o staff de empregados é tão grande, o serviço de mesa tão requintado, os anfitriões tão cheio de etiquetas, que dá aquela vontade súbita de sair correndo e gritar por socorro.
Como colunista social, é claro que admiro uma festa bonita, elegante, onde os detalhes de bom gosto estão sempre presentes. E acho mesmo o máximo aquela pessoa que sabe organizar eventos de tal porte. Mas bom mesmo, é aquele encontro informal, quando a gente tem hora para chegar e não para ir embora. Nada no mundo é melhor do que estar cercado pelos melhores amigos, num local gostoso e que tenha o ingrediente principal: descontração. A gente se senta à vontade, não se preocupa com a meia fina, vai do jeito que saiu do trabalho. Porque ninguém repara. Tem coisa pior do que gravata apertando o gogó num verão de 30 graus? Pode ser a festa mais chique do ano, que o evento se torna um inferno.
Recentemente fui a um casamento concorrido, muito comentado e esperado. A certa altura da festa, toda pompa foi por água abaixo: a tia simplória da noiva gritou bem alto e para todo mundo escutar: É hora de pôr a mão na bufunfa! A gravata vai correr solta! Pronto. Efeito devastador. Mas serviu para descontrair aquele ambiente em que tudo era tão perfeito e... tedioso. No fim, passado o mal-estar da família e a tensão que pairou no ar, o noivo curtiu a idéia - quer dizer amou de paixão - e acabou chutando o balde e embolsando um dinheirinho razoável.
Esta semana fiquei toda melancólica. Me bateu tanta saudade daqueles encontros com os amigos que fui visitar o seu Tonho e a dona Judite. E que estão no mesmo local há tantos anos, se mantendo com os pasteizinhos recheados de vento e algumas inovações.
As cadeiras e mesas de ferro cederam lugar a outras de melhor padrão; o ventilador pequeno, que ficava sobre o balcão, foi trocado por dois ventiladores de teto, de gosto duvidoso; as prateleiras, quase sempre despencando, cederam lugar para quadros pintados pela neta do casal, que mostra e fala das obras com o maior orgulho.
A decoração mudou, melhorou, mas o bom astral continua naquele lugar. A simplicidade dos donos e a alegria com que me receberam, só serviram para me dar mais saudades e vontade de reunir outra trupe de amigos naquele mesmo lugar.
E foi o que tentei fazer. Mas os amigos, ao questionarem o lugar, preferiram ficar em casa. E devem ficar mesmo. São esnobes o suficiente e não conhecem as boas coisas da vida, aquelas mais simples em que apenas uma boa companhia basta.
Quando se tem 20 anos, qualquer lugar é bom, qualquer encontro vira festa, qualquer viagem é inesquecível, qualquer namoro vira paixão. Depois dos 30, todo mundo vai ficando mais ranzinza e querendo mais. Não gostam que batam a porta, que falem alto, que aumentem o som, que balancem as pernas, que isso e aquilo. Depois dos 30 anos, tem gente que fica chata demais.





