Escrevo esta crônica depois de escutar pela primeira vez o ditado ‘‘Quem bate esquece, quem apanha lembra’’, durante uma conversa com uma amiga, anteontem. Aquilo ficou na minha cabeça e me fez pensar em quantas vezes desci o sarrafo numa pessoa e depois me esqueci completamente ao ponto de encontrá-la, e com a maior cara de pau do mundo, conversar como se nada havia acontecido.
Esta é uma mania que a maioria das pessoas tem, em dizer certas coisas - impensadamente -, de não frear a língua no momento certo e depois pagar o preço. Hoje tenho mais cuidado para afirmar, indicar ou julgar. Mesmo porque, devíamos mais nos preocupar com a nossa vida do que com a vida dos outros.
Quando somos ofendidos nos sentimos magoados como se o inverso nunca tivesse acontecido. Aí a mágoa fica remoendo por dentro e a pessoa que fez e aconteceu deixa passar batido, muitas vezes até se esquece do episódio. Mas quem sentiu a chibatada muitas vezes não se esquece, não.
Conheço gente que passa a vida te tratando com pouco caso, sem te dar a menor atenção, simplesmente porque é assim. Não faz a mínima questão de agradar ou ser agradado. Mas bastou pisar um pouquinho mais forte no calo para ela encher a boca e dizer que está decepcionada. É isso aí, mesmo: ‘‘Quem bate esquece, quem apanha lembra’’.
Às vezes você está feliz sem motivo. É um final de semana qualquer, livre para passear, está no maior bom astral e sem esperar, vem uma chibatada qualquer: do filho, da mulher, do marido, do amigo. Nos mais sensíveis aquilo funciona como uma facada no peito. Os olhos ficam marejados e o balde de água fria é o suficiente para nos colocar para baixo. Aí quem apanhou fica na situação de vítima e sem trocar uma palavra com qualquer ser da casa. E haja pedidos de perdão para quebrar o gelo. Quando há. Lá em casa isto é lei. Bancou o mal-educado precisa pedir desculpas. Mesmo que seja um dia depois. Entre pais, filhos e irmãos não deve haver ressentimento ou mágoa. Nunca. E a casa da gente deve ser o melhor lugar do mundo.
E tem aqueles também que vivem apanhando, levando puxão de tapete, sendo acusados de responsáveis por tudo que acontece de mal no planeta. Com mãe de adolescente - e eu sou uma delas - acontece sempre assim. Se a roupa para a festa não está de acordo, a mãe é culpada. Se o namorado desaparece, a mãe é culpada. E se a conta do telefone vem alta, a mãe é a conversadeira do pedaço. Mas ai da mãe que reclamar do fuzuê do quarto do filho, onde CDs, roupas e revistas convivem em plena harmonia espalhados pelo chão, debaixo da cama. Ou da geladeira que pifou, do computador que deu defeito. Mãe parece nunca ter direito de bater, só de apanhar. É porque mãe perdoa tudo e filho sabe disso.
Assumo que já magoei pessoas sem a menor intenção. Mas ofendi e não fiquei com um pinguinho de remorso porque nada foi proposital. Por isso devemos vigiar nossa língua. Já fiquei bom tempo afastada de pessoas que se ofenderam com aquilo que eu falei num momento infeliz. Se arrependimento matasse...
Muitas vezes as aparências enganam, uma pessoa pode aparentar exatamente o contrário do que é. Tenho uma amiga que tem fama de durona, mas é pior que manteiga, se derrete por qualquer coisa. Com esta, deve-se ter cuidado dobrado para não bater, porque esquecer, ela não se esquece jamais e em tempo algum de quem apanhou.
Decepções a gente sempre tem e infelizmente fazem parte do nosso dia-a-dia. Somos machucados pelas pessoas que mais amamos, mas também não somos santos. Sabemos dar nossas ferroadas que ficam latejando no outro por muito tempo. Volto a repetir ‘‘Quem bate esquece, quem apanha lembra’’. Tem situações que o tempo não apaga e há outras que podem ser resolvidas com um pedido de perdão. E há outras que podem ser evitadas. Fechando a boca.
E-mail:[email protected]

mockup