Pela primeira vez o Festival de Dança de Londrina incluiu o hip hop em sua programação. Além de assistir às manobras do break, estilo de dança bastante difundido, o público vislumbrou um pouco do C-Walk, dança também característica do hip hop que vem ganhando cada vez mais adeptos, mesmo longe da periferia.
Criado pela gangue Crips em Los Angeles nos anos 1970, o C-Walk era utilizado para se reconhecer outros membros e também acentuar a rivalidade com os Bloods, outra gangue da época. Mas a dança foi gradativamente perdendo o vínculo com as gangues e adotada pelo pessoal do hip hop. Rappers como Snoop Dogg, WC, Ice-T e Kurupt já utilizaram a dança em apresentações.
O fato de trabalhar essencialmente os movimentos dos pés e pernas, sem exigir tanta técnica e precisão como o break, conquistou também os brasileiros. Em Londrina, um grupo de cerca de dez pessoas tem transformado a cidade em um dos pólos do C-Walk no País através da divulgação via internet e de um trabalho social com crianças de comunidades carentes.
Mas como essa dança norte-americana chegou ao norte do Paraná? ‘‘Aprendi nos DVDs de rap antigos. Daí vi num documentário e fui aprendendo mais um pouco’’, explica Jean Carlos de Andrade, 27 anos, que há um ano e meio pratica o C-Walk.
Assim como Jean, Vasco Perez Giufrida, 21 anos, também conheceu a dança por meio de DVDs e se identificou com as possibilidades de criar sobre o estilo. ‘‘Aqui a gente mistura com samba, samba-rock, James Brown, não apenas copia o que é feito nos Estados Unidos. Em Londrina a gente tem nosso próprio estilo. Depois que pega a base, cada um cria seu próprio passo’’, diferencia. Foi o que aconteceu com Bruno Teodoro Pires, 21 anos, que aprendeu a dança com Vasco. ‘‘Mas também aprendi bastante coisa sozinho. O que me atraiu foi o estilo, eu gosto de hip hop e me dou bem com essa dança’’, revela.
Outro diferencial da cidade é preservar a característica de dança de rua do C-Walk. ‘‘Eu canto e é um estilo legal para usar em shows. Mas, para mim, é mais do que uma dança, é uma filosofia de rua, uma coisa de sentimento’’, explica Márcio Luiz Feliciano, o Psico, 31 anos.
Aproveitando a ligação do hip hop com a periferia, Vasco resolveu ensinar a dança a crianças de comunidades carentes. ‘‘Sempre quis fazer um trabalho social, dar uma opção para eles, mostrar que tem outra saída fora o tráfico. Hoje eu ensino a dança no projeto Viva Vida, mas pretendo ter um projeto só de C-Walk’’, planeja o professor, que também já deu aulas na Casa do Hip Hop e levou a dança a universidades e outras cidades do Paraná.
Aluno de Vasco quando este dava aulas no conjunto João Turquino, Regisvaldo Moreira Campos de Melo, 12 anos, é um exemplo de como o C-Walk traz aos seus praticantes uma identificação com uma cultura de contestação sem limites geográficos. ‘É o que mais gosto. Meu sonho é ser professor de C-walk quando crescer’’, revela.

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