Aplaudido e vaiado com igual intensidade pelo mundo afora, o crítico literário norte-americano Harold Bloom se revela preocupado com o futuro da literatura em seu novo livro, ‘‘Como e Por Que Ler’’, que acaba de ser lançado pela Editora Objetiva. Para ele, os leitores, sob o véu da superficialidade e facilidades do mundo atual, estão cada vez mais raros.
Pensando em ajudar leitores perdidos em mares de livros, decidiu realizar um guia básico do que melhor foi produzido na literatura ocidental nas categorias romance, conto, poema e peça teatral. Selecionou 42 escritores autores e suas melhores obras. Bloom seguiu religiosamente seu gosto pessoal e suas controvertidas posturas literárias.
Ao contrário de uma legião de escritores contemporâneos que joga confete e serpentina no advento da internet, sob a alegação de que as pessoas estão lendo cada vez mais, o crítico pensa o contrário. Para ele o fato de hoje em dia a informação poder ser encontrada de maneira rápida e fácil, não significa muita coisa. As pessoas estariam tendo acesso à informação mas não à sabedoria.
Harold Bloom considera o ato de ler um dos grandes prazeres da solidão. E as razões que levam os homens a lerem com intensidade, são conhecidas: ‘‘Porque, na vida real, não temos condições de ‘conhecer’ tantas pessoas, com tanta intimidade; porque precisamos nos conhecer melhor; porque necessitamos de conhecimento, não apenas de terceiros e de nós mesmos, mas das coisas da vida.’’
Entre os contistas analisados por Bloom estão Ivan Turgenev, Anton Tchekhov, Guy de Maupassant, Ernest Hemingway, Flannery O’Connor, Vladimir Nabokov, Jorge Luis Borges, Tommaso Landolf e Italo Calvino. Em relação à poesia, ele deixa transparecer suas unhas tendenciosas. Se restringe apenas à poesia escrita em língua inglesa – William Wordsworth, John Keats, Walt Whitman, William Blake, Emily Dickinson, John Milton e outros.
Na dramaturgia, Bloom é bastante sucinto ao apresentar apenas três autores com três obras: William Shakespeare com ‘‘Hamlet’’, Henrik Ibsen com ‘‘Hedda Gagler’’ e Oscar Wilde com ‘‘A Importância de Ser Prudente’’. Na categoria romance, justifica porque ler Miguel de Cervante, Stendhal, Jane Auster, Charles Dickens, Dostoiévski, Henry James, Marcel Proust, Thomas Mann, Herman Melville e William Faulkner. A surpresa está na apresentação da melhor linhagem dos romances contemporâneos, todos norte-americanos: Thomas Pynchon (‘‘O Leilão do Lote 49’’), Cormac McCarthy (‘‘Meridiano de Sangue’’), Toni Morrison (‘‘A Canção de Solomon’’), Nathanael West (‘‘Miss Corações Solitários’’) e Ralph Ellison (‘‘O Homem Invisível’’).
‘‘Como e Por Que Ler’’ pode ser encarado como confluência de outras duas controvertidas obras de Harold Bloom, ‘‘O Cânone Ocidental’’ (Editora Objetiva, 1995) e ‘‘Shakespeare: A Invenção do Humano’’ (Editora Objetiva, 2000). Isso porque além de estender sua particular visão canônica, reforça a tese que de Shakespeare seria o maior escritor da galáxia.
Em ‘‘Como e Por Que Ler’’ o crítico compara praticamente todos autores e obras analisadas à Shakespeare. Estabelece conexões com objetivo de reforçar suas idéias apresentadas em ‘‘Shakespeare: A Invenção do Humano’’ Sua tese é de que o dramaturgo inglês teria inventado os sentimentos humanos tal como conhecemos hoje.
É inegável que Harold Bloom oferece uma análise apurada da trajetória da evolução da literatura (segundo a ótica dele) através dos tempos a partir das obras e autores comentados. Revela coisas simples e eficientes quando afirma que todo poema deve ser lido em voz alta e, se possível, memorizado. Seria a prova dos nove para revelar a qualidade dos versos. E que conteúdo é requisito básico para uma obra literária – bem como a ironia, a dádiva do texto.
Ninguém precisa aceitar os argumentos de Bloom. Ele próprio assinala que o leitor deve procurar algo mais que concordar ou discordar das palavras gravadas na literatura universal. Seu conselho é: ‘‘Leia plenamente, não para acreditar, nem para concordar, tampouco para refutar, mas buscar empatia com a natureza que escreve e lê.’’
Virginia Woolf, certa vez, chegou a sugerir um conselho mais radical: ‘‘Na verdade, o único conselho que se pode dar a alguém com respeito à leitura é não aceitar conselho algum.’’ O leitor, como único dono de seus olhos, seria aquele mais indicado para aceitar ou renegar conselhos.
• ‘‘Como e Por Que Ler’’ de Harold Bloom, Editora Objetiva, tradução de José Roberto O’Shea, 276 páginas, R$ 29,90.

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