Relações humanas, recheadas por tramas complexas, mas extremamente verossímeis, são a base do texto de Lícia Manzo. Decidida a abordar histórias sobre o surgimento de novas famílias, a autora situa "Sete Vidas" em referências reais. A fonte de inspiração da vez foi o documentário inglês "Doador Desconhecido", de 2010. A produção acompanha a busca de JoEllen March por seu pai biológico.
Gerada a partir de uma inseminação artificial, a jovem de 20 anos tem como única pista o número 150, que se refere ao cadastro do homem que serviu como doador de sêmen. No caminho até o pai, a partir de sites específicos e pesquisas em redes sociais, a jovem acaba encontrando 12 meio-irmãos, filhos do mesmo doador. "A contemporaneidade dessa história me encantou. É uma cruzada muito instigante ao encontro de suas origens e a uma noção de pertencimento. No caso da novela, fechei a história em sete filhos e nas especificidades do destino de cada um", conceitua Lícia.
No ponto central da trama está a figura livre, independente e sem amarras de Miguel, protagonista de Domingos Montagner. Quando jovem, o personagem foi doador de sêmen em uma clínica de fertilização em Los Angeles, nos Estados Unidos. Quase 30 anos depois, Pedro e Júlia, papéis de Jayme Matarazzo e Isabelle Drummond, decidem conhecer suas origens e procuram a clínica na busca por informações. Os dois escrevem uma carta para o doador 251, mas quem recebe a correspondência é Lígia, de Débora Bloch, que teve um relacionamento com Miguel. "É uma história de redescoberta. Outros irmãos vão aparecendo e, de alguma forma, mesmo sem qualquer vínculo afetivo, surge um sentimento de família entre todos", conta Isabelle.
Lígia se sensibiliza com a causa. Até porque, após uma forte história de amor com Miguel, ele partiu em uma viagem pela Antártida e desapareceu. Ela se descobriu grávida e sozinha. Sendo assim, a possibilidade de conhecer os meio-irmãos da criança a faz se sentir mais próxima do amado. "É uma trama muito bem amarrada, com ganchos fortes. Ao mesmo tempo em que é carregada de muita sensibilidade e naturalidade", valoriza Débora.
O texto leve e sensível da autora, que ficou conhecida após a boa repercussão de "A Vida da Gente", de 2011, se mostra intacto e muito bem harmonizado novamente sob a direção de Jayme Monjardim. A ideia de tornar a novela mais externa e marítima foi do diretor. Por conta disso, Lícia desenvolve boa parte das ações na paixão do protagonista por viagens pelo mar e fez um núcleo ambientado em Fernando de Noronha. "A estética da novela tem de estar a favor do texto, mas é preciso pensar bem questões como cenários, figurinos e locações. 'Sete Vidas' é uma das tramas mais bonitas que já fiz", enaltece Monjardim.
O trabalho de gravações da novela vem tomando boa parte da vida do diretor e de toda a equipe desde dezembro do ano passado, quando cerca de 90 pessoas viajaram até a parte mais gélida da Patagônia Argentina. Entre icebergs e lagos congelados, a equipe gravou por cerca de um mês. "Foi uma viagem muito significativa. As gravações deram um trabalho enorme, mas o resultado é impressionante", exalta Domingos.

Força do destino

Lícia Manzo foge do óbvio na estrutura dramática de "Sete Vidas". Assim como em sua novela anterior, a autora prefere não contar com a figura do vilão para arquitetar os encontros e desencontros dos mocinhos da trama. Com boas ou más condutas, os personagens são reféns de seus próprios caminhos e escolhas. "Não existe uma a interferência de alguém ardiloso no caminho dos personagens. A vida se encarrega de criar obstáculos e frustrações na trajetória de cada um", analisa a autora.
A possibilidade de fugir do maniqueísmo é celebrada pelo elenco. Todos os tipos criados pela autora são carregados de sentimentos nobres, mas também sentem medo, inveja, ciúmes, egolatria, culpa e rejeição. O protagonista Miguel é um panorama desse equilíbrio de forças. Ao mesmo tempo em que ama Lígia, ele a abandona por conta de sua individualidade. "É difícil criar uma linha de atuação sem qualquer apoio dramático ou composição. Aí está a complexidade do elenco e seus personagens. Cada um é seu próprio vilão", valoriza o ator.

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