Burroughs viaja para outro mundo
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de agosto de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
France Presse/Arquivo FolhaWilliam Burroughs: o mais pesado dos beats desceu até as profundezas do inverno e voltou para descrever a paisagem que viuA morte pode ser um coelho embaixo da janela pegando o sol da manhã. Ele pode estar ali esperando que alguma coisa o espante, ou jogue uma pá de cal por cima.
Na manhã do primeiro dia de agosto um coelho cinza alojou-se sob a janela de William S. Burroughs. Seu estado de saúde não lhe permitia espantá-lo, gritar, correr. Nem mesmo seus vários gatos de estimação que habitavam a casa eriçaram seus pêlos para o coelho. Então veio a pá de cal na forma de um ataque cardíaco aos 83 anos de idade. Levado para um hospital, morreu no dia seguinte, 2 de agosto de 1997.
Burroughs era o último integrante vivo da trindade central do Movimento Beat. Ao lado dos escritores, Jack Kerouac - morto em 1969 - e Allen Ginsberg - falecido em abril último - formavam a irmandade que detonou o movimento que balançaria a cultura americana. Outros viriam se juntar a eles - Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Gary Snyde e outros - para formar o que recebeu o nome de Beat Generation, na década de 50. Um movimento literário e comportamental que batia de frente com os valores sociais tradicionais. Levando em conta sua intensa e sombria vida, ninguém entendia muito bem como o escritor William Burroughs - nascido em 1914 - ainda permanecia vivo, completamente lúcido, trabalhando, depois das toneladas de drogas que usou. Era chamado de farmácia ambulante. Foi o mais pesado dos beats, desceu até as profundezas do inverno e voltou para descrever a paisagem que viu.
Barra pesada Burroughs foi um autêntico punk de terno, gravata, chapéu e bengala. Nascido em berço aristocrático - seu avô foi o inventor da máquina de calcular - estudou medicina e antropologia em Harvard, mas escolheu o submundo como lar. Entrou nas drogas pesadas como pesquisador que utilizava o próprio corpo como cobaia. Viveu em Nova York, Cidade do México, Tanger, Marrocos, Paris, Londres e Veneza. Começou a escrever em 1944, quando encontou Kerouac e Ginsberg.
Além da literatura, dedicou-se à pintura e fotografia. Era um dedicado colecionador de armas de fogo. Parte de suas pinturas eram realizadas atirando contra latas de tintas sobre uma tela. Em 1951, numa festa em sua casa, resolveu brincar de Guilherme Teel. Bêbado, colocou um copo de vodka na cabeça de sua esposa, tomou distância e atirou com uma pintola. Errou o alvo. A bala atingiu o rosto da mulher, que teve morte instantânea. Este fato marcaria para sempre sua vida.
Sua voz trazia todos os caminho que percorreu. Rouca e cadavérica, foi requisitada em gravações de grandes músicos do universo pop. Participou de discos de Laurie Anderson, R.E.M., David Bowier, Kurt Cobain, Disposable Heroes of Hipocrisy, e outros. Sua última aparição foi no vídeo Las Night on Earth do U2, gravado em maio último. No cinema participou do filme Drugstore Cowboy de Gus Van Sant.
A obra literária de Burroughs não agrada a grande parte dos leitores. Pode ser considerada como esquisita e imoral. Trabalhando com um universo de drogados, homossexuais, desejos bizarros, e previsões fantasmagóricas do futuro, utiliza uma linguagem caótica e fragmentária. Mas uma coisa é certa, os mecanismos de sua escrita e seus experimentos com a linguagem o colocam entre os escritoras mais radicais deste século.
As obras Autor de 28 livros, o escritor possui apenas quatro livros publicados no Brasil: Junkie (Editora Brasiliense), Cartas de Yage (Editora L&PM), Almoço Nu (Editora Brasiliense) e Cidades da Noite Escarlate (Editora Siciliano). Todos - com exceção de Cartas de Yage - são barra pesada.
Junkie (gíria utilizada para designar viciados em droga pesada) publicada originalmente em 1953, narra as peripécias de Burroughs em conseguir droga, as relações com traficantes, policiais e a dependência. Em alguns pontos pode parecer um livro policial, outros como o relato de um desesperado dependente.
Almoço Nu (The Nuked Lunch), sua obra mais cultuada, publicada em 1959, é uma painel de narrativas caóticas, alucinantes e perturbadoras. Foi adaptado para o cinema em 1991 por David Cronenberg. Burroughs constrói uma ficção atormentada que chega às portas da insanidade. Exige um bom estômago e falta de preconceito generalizado. São histórias com uma narrativa convulsiva que passeia por todo tido de imaginação lunática. Foi quase totalmente escrito sob efeito de heroína. No prefácio da edição brasileira, o historiador Nicolau Sevcenko escreveu: Sua obra é um uivo rouco que não traz lições e nem modelos, apenas a perplexidade. Não procuremos significados complexos nesse insólito repasto poético, tenhamos a humildade de nos assombrar diante de tanta fraqueza e de tanta fúria.
Cartas de Yage (The Yage Letters) traz a correspondência entre Burroughs e Ginsberg durante suas respectivas viagens pela região amazônica em busca de experiências com o alucinógeno indígena Yage. Burroughs esteve na região em 1953, passou pela experiência e a reatou em Cartas a Ginsberg. Ginsberg esteve na mesma região para provar a droga em 1960 e também relatou em cartas sua experiência a Burroughs. A correspondência foi reunida e publicadas em forma de livro em 1963.
Cidades da Noite Escarlate (Cities of Red Night), escrito na década de 70, prevê o surgimento de um vírus semelhante ao HIV. Trata-se de um outro livro alucinado que não pode ser considerado como um romance tradicional, mas uma prosa percorrendo caminhos desordenados. Com uma temática perturbadora, a obra causa a mesma sensação de outros livros do escritor: o esquisito levado à uma categoria estética - uma vertente um voga nas artes dos anos 90.
A questão central de seus trabalhos é o rompimento com os valores tradicionais. O rompimento de limites, a busca de caminhos pouco trilhados e, acima de tudo, o exercício da liberdade individual. Para seu biógrafo Barry Miles, o tema que permeia toda a sua vida/obra pode ser assim descrito: A idéia de que as pessoas podem controlar suas vidas e não podem ser manipuladas pelos controles externos. Para ele, todos os valores devem ser questionados e analisados. Isso ainda é válido e podemos olhar a sociedade por seus olhos, vendo como os controles externos nos cegam para o mundo.


