Quando percebeu que o sambista Candeia gostava de jazz, o jovem Guinga ficou pensativo. Ambos eram amigos, e o violonista ia até a casa do compositor ouvir nomes como Dave Brubeck. Na atitude informal do sambista, um recado inconsciente ficava claro: arte não tem fronteiras. A quebra de preconceitos tornou Guinga um compositor obcecado pela melodia, que não teme cruzar linguagens para burilar o resultado desejado. Aclamado como músico, Guinga sobe hoje, às 20h30, ao palco do Cine-teatro Ouro Verde, para mostrar por que foi gravado por nomes como Turíbio Santos, Chico Buarque e Elis Regina. O espetáculo faz parte da programação do Festival de Música da cidade.
O show não se restringe ao repertório de ‘‘Cine Baronesa’’, seu último disco. ‘‘Vou mostrar a minha arte’’, frisa. Intuitivo, o violonista não gosta de se planejar. Enxerga o reconhecimento como extensão do próprio trabalho, uma consequência das horas de estudo e aprimoramento técnico. Melodista convicto, ressalta: ‘‘Não há grande música com melodia ruim’’.
Amanhã Guinga ministra uma palestra na Associação Médica de Londrina (Praça 1º de Maio, 130), a partir das 9 horas. Pretende falar sobre o violão, mas ainda não sabe exatamente o quê, optando pelo improviso. Após gravar um comercial sobre odontologia no Rio de Janeiro, enquanto almoçava em sua residência, Guinga conversou por telefone com a Folha2. Estava afoito com serviços bancários e os preparativos para a viagem, mas não dispensou o característico bom humor.
É verdade que você frequentava a casa do Candeia e que ele ouvia jazz?
Eu cansei de botar Dave Brubeck para ele ouvir. Aqueles discos famosos, da época de ‘‘Take Five’’. Ele gostava muito. Conhecer um sambista ouvindo jazz foi como um alerta, a arte não tem fronteiras. O compromisso da arte é a emoção. Não interessa de onde, mas interessa que ela venha. A atitude dele me levou a pensar isso.
Você estudou violão clássico por cinco anos, mas já tocava antes...
Fui estudar violão com 27 anos, já era casado, dentista. Tinha aprendido a tocar na informalidade e já era músico.
Como isso se refletiu em suas composições?
Eu sou compositor desde os 17 anos. A minha música pode ter mudado depois, no sentido de que consegui estruturar certas coisas instrumentais. A canção foi evoluindo normalmente, pela vida. Estudar violão clássico impressiona, estudei para entender melhor o instrumento.
O que você vai mostrar no show em Londrina?
Vou mostrar a minha vida. Toda vez que toco é como se eu mostrasse minha vida para as pessoas. Cada vez que subo no palco é como se fosse a última vez. Quero mostrar o que estou compondo, tudo isso que eu fiz na década de 90.
Você toca desde a infância, mas só foi gravar um álbum próprio em 1991.
Comecei a tocar aos 11 anos, aprendendo nos bares, nas serestas, nas jam-sessions, até me tornar músico profissional. Depois eu resolvi estudar violão, queria saber como funcionava. Cultura não ocupa espaço e nunca é demais. Em 1967 eu já participava no 2º Festival Internacional da Canção. O que aconteceu foi uma parada na minha exposição, talvez por ter trabalhado mais como dentista, também pela ocasião. Fiquei meio anônimo, mas compondo como um louco. Fiz uma obra. Foi uma reclusão que me deu uma obra pronta.
Os discos ‘‘Cheio de Dedos’’ (1996), ‘‘Suíte Leopoldina’’ (1999) e ‘‘Cine Baronesa’’ (2001) fecham uma trilogia sobre o Rio de Janeiro?
Eles são irmãos, mas não estou preocupado em fechar um ciclo. Meu negócio é compor. Um disco depende muito do meu estado de espírito. Da mesma forma que agora pode vir um disco só de canções. Mas talvez fechem algo, são muito parecidos.
O que você vai falar na palestra de amanhã?
Vou falar do meu violão. Não preparo nada na minha vida. Não se trata de arrogância... Fui dar aula na Escola de Música de Brasília e cheguei na sala sem saber o que fazer. Vai depender do momento, não sei como vou começar a falar.
A música brasileira está mudando?
A música brasileira continua como sempre foi. Muda esteticamente, de acordo com os momentos. Mas tem sempre muita gente boa, muitos violonistas, pianistas, saxofonistas. Nosso país é prolífico. Temos que nos preocupar com quem conduz isso. A boa música vai sempre existir. Posso citar vários nomes, como Yamandu Costa, Daniel Santiago, Hamilton de Holanda... No Paraná eu conheci um cara muito bom na viola, o Gulin (dos grupos curitibanos Terra Sonora e Viola Quebrada).
A mídia está refletindo isso?
A imprensa escrita tem sido muito digna. Já a televisão não, com exceções. As grandes redes não se importam. Mas tem a TV Câmara, a TV Cultura, a TV Senado, a TV Educativa do Rio de Janeiro, não quero ser injusto... Mas precisamente a Rede Globo não tem o menor interesse.
Você pretende entrar em estúdio após essas apresentações?
Eu quero compor. Eu peço a Deus que me dê saúde para eu trabalhar muito. Tenho 51 anos e me sinto cheio de energia e vitalidade. Mas não faço muitos planos não.
Sua obra aglutina linguagens diferentes. Como você faz esse cruzamento?
Ouço muita música. Passei dois terços da minha vida ouvindo música. Escuto música erudita, jazz e música popular, isso se reflete naturalmente. Quando o Aldir Blanc entrou na minha vida ela mudou. Deu um frescor a minha obra. Foi muito importante na minha carreira. Depois, minha mulher começou a administrar. Às vezes você não sabe se colocar, não sabe o caminho a seguir, é necessário alguém para mostrar certas coisas. Às vezes o cara só pensa em música.
A odontologia e a música têm a mesma importância em sua vida?
Acabei de chegar da rua, estava fazendo um comercial para odontologia. As duas coisas são importantes. Eu não largo o consultório. Hoje exerço menos, mas não largo.

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