Buñuel é tema de documentário na GNT
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terça-feira, 03 de abril de 2001
Luiz Carlos Merten Agência Estado 
Javier Ryoyo não pensa duas vezes quando o repórter lhe pergunta por que um filme sobre Luis Buñuel. Hombre, é impossível ser espanhol e gostar de cinema sem reverenciar o gênio de Don Luis, o maior artista que a Espanha deu ao cinema. Sendo, como é, documentarista, ele aproveitou o pretexto do centenário de nascimento do cineasta, no ano passado, e conseguiu financiamento de TVs da França e da Espanha para fazer A Propósito de Buñuel. O filme será exibido hoje, no canal pago GNT. Não perca.
Ryoyo tem 48 anos. Conta que não foi fácil para sua geração assistir aos filmes de Buñuel. Eles eram proibidos na época do franquismo. Mas isso só fazia aumentar o mito Buñuel para os jovens contrários ao regime. Ryoyo não fez seu filme sozinho. Divide a direção com José Luis López.
A Propósito de Buñuel começa com flashes de entrevistas. Colaboradores do grande Don Luis dão uma espécie de prévia do que dirão depois. Michel Piccoli fala no horror que Buñuel tinha à mentira. Jean-Claude CarriSre, roteirista dos filmes da última fase do artista, conta que Buñuel era um homem muito bem-humorado. Um dia em que o trabalho dos dois não fosse permeado pela diversão e pelo riso era um dia perdido.
Esse homem bem-humorado, que odiava a hipocrisia, foi um mestre do surrealismo no cinema. E deixou o legado de uma obra construída em torno do tema da liberdade. Buñuel odiava a trindade tradição, família e propriedade. O Exército e a Igreja foram sempre alvos de sua ferocidade crítica.
Foi um homem que conseguiu um notável equilíbrio entre ele mesmo e suas contradições. Educado por jesuítas, podia detestar a Igreja, enquanto instituição, mas, até para chocar, gostava de definir-se como ateu, graças a Deus. O ateu era capaz, na intimidade e sem que ninguém soubesse Ryoyo descobriu-o em suas pesquisas , de pagar do próprio bolso as festas da semana santa de Calanda, onde nasceu. Tinha amigos padres, com os quais adorava conversar. Discutir a teologia, o pecado, era um de seus passatempos preferidos.
A contradição fazia parte da vida de Buñuel. O documentário, com cenas preciosas de filmes, ajuda a iluminar uma das personalidades mais extraordinárias do cinema. Era um homem medieval, resume Ryoyo, na entrevista por telefone, de Madri. Mas isso não o impediu de ser um progressista, na arte e na vida, abraçando o surrealismo libertário e aderindo à causa republicana, na Guerra Civil espanhola.
A Propósito de Buñuel. Documentário sobre a vida e obra do cineasta. Hoje, às 22h30. GNT


