Tudo pronto no Maranhão para uma das mais representativas manifestações folclóricas do País. O bumba-meu-boi acontece em todo o Estado durante o mês de junho, mas São Luís é sua maior expoente. Quem visitar a capital maranhense neste mês terá o prazer de vê-la transformada num grande arraial, onde não faltam os ingredientes básicos para uma típica festa nordestina: cores, música, folclore e, claro, animação de sobra.
A Secretaria de Turismo do Estado aproveitou a deixa da festa para intensificar a divulgação, em todo o País, de seu Plano de Desenvolvimento Integral do Turismo do Maranhão, o Plano Maior, cujas metas visam consolidar o desenvolvimento ordenado da indústria do turismo na região. E, em época de contenção de energia elétrica, uma boa notícia: grande parte do Maranhão, o que inclui São Luís, está fora do programa de racionamento adotado pelo governo federal.
A subgerente de turismo do Maranhão, Kátia Lima, descartou a possibilidade da festa perder o brilho por causa de eventuais ‘‘apagões’’. ‘‘Este realmente era um problema que nos afligia bastante’’, disse. Kátia Lima obteve garantia da Companhia Energética do Maranhão (CEMAR) de que São Luís não será afetada. ‘‘O racionamento praticamente não irá atingir o Maranhão, pois somos atendidos pela Eletronorte, que fica na região Norte, fora da área de racionamento’’, explicou Kátia. ‘‘E a festa deste ano promete ser uma das melhores.’’
Para falar sobre o bumba-meu-boi é necessário voltar um pouco na história, às raízes das tradições folclóricas da ilha. São Luís foi fundada por franceses, em 1612, quando lá aportou a expedição de Daniel de la Touche, ignorando o Tratado de Tordesilhas (que dividia o Brasil entre Espanha e Portugal). A futura ‘‘França Equinocial’’, pelos planos de Touche, foi batizada como Saint Louis. Três anos mais tarde, os portugueses dominaram a região. A batalha não terminaria tão cedo. Em 1641, os holandeses de Maurício de Nassau, que já ocupavam Recife, invadiram São Luís. A briga durou três anos, culminando na expulsão dos holandeses e no hasteamento da bandeira de Portugal.
Entretanto, antes mesmo de se tornar Saint Louis, a ilha era habitada pelos índios tupinambás e conhecida como Upaon-Açu. Mesmo com a presença de povos europeus, os costumes indígenas, seus mitos e lendas, foram preservados. Claro, em muitos casos, com uma ligeira maquiagem estrangeira. Desta forma, o folclore de raiz condensou-se a outras crenças, como o catolicismo dos brancos colonizadores e os rituais religiosos dos negros africanos, que foram trazidos em grande número a partir do século 17.
Esta rica miscigenação cultural dão brilho e o tom da festa do boi, cujo cenário, pode-se dizer, é igualmente singular. Uma feliz mistura de música, folclore, teatro e dança. É por entre ladeiras e alamedas seculares de paralelepípedos, cercadas por casas coloridas, muitas ainda ostentando os tradicionais azulejos decorados dos portugueses, que desfilam animados blocos de bois.
Os bois mais tradicionais são os dos municípios de Axixá, Pindaré e Morros. De São Luís destacam-se os bois de Maracanã, Maioba e Madre de Deus. Muitos destes grupos viajam do interior do Estado para participar da festa na capital, o que resulta numa peculiaridade interessante: a diversidade de ‘‘sotaques’’ musicais. A vestimenta, normalmente, abusa do veludo, mesmo com o sol a pino, das máscaras e dos chapéus com longas fitas penduradas, bordados e penas.
Na verdade, as festividades de bumba-meu-boi acontecem durante todo o ano no Maranhão, mais o ponto forte desta tradição é mesmo em junho. Este ano, o Estado investiu alto na festa. ‘‘Entre campanhas publicitárias, programação do evento e montagem o governo investiu R$ 3 milhões. Mas a população também entrou com sua parte, já que esta é uma festa realizada pela própria comunidade’’, observa Kátia Lima.
A receita, segundo afirma a subgerente de turismo, virá com a ampliação do fluxo de turistas, ‘‘uma vez que mais dinheiro circulando significa mais impostos em caixa’’. E, se depender da expectativa dos organizadores do evento, o movimento será realmente alto. ‘‘Pretendemos receber um público de 200 mil pessoas, praticamente o dobro do ano passado’’, disse Kátia Lima.
Mais de 300 grupos fazem a alegria dos turistas e nativos que se juntam para ‘‘brincar o boi’’ em apresentações que pipocam pelos mais de 50 arraias da ilha sendo 19 os oficiais, montados pela prefeitura. ‘‘Só de brincantes nativos, podemos contar mais de 5 mil pessoas’’, informa Carlos Martins, superintendente de marketing da Gerência de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Maranhão.
De acordo com Martins, o público terá atração de sobra na cidade. ‘‘Os bois se apresentam em 15 circuitos, nas casas de particulares ou nos arraias que os contratam. É só aproveitar o convite para entrar na brincadeira e se divertir com qualquer um deles’, avisa.
Os ensaios principais são realizados no dia 13, Dia de Santo Antônio, e contam com a presença dos maiores grupos. No dia 23, véspera de São João, é a hora do batismo, momento em que o boi é abençoado pelo santo, na sede do grupo, e ganha roupa nova. O batismo (para que os bois não saiam às ruas como pagãos) liderado pelo cantador-mor, é animado por cantadores e brincantes.
O dia 24, Dia de São João, momento mais esperado da brincadeira, é quando os grupos se apresentam. Mas ainda não acabou. A animação continua, no dia 29, Dia de São Pedro, com a realização da procissão de barcos pela Baía de São Marcos e com o encontro dos grupos na Praça de São Pedro, em Madre de Deus. A festa não tem hora para acabar, a madrugada é marcada por danças e cantorias.
Para finalizar o ciclo festivo do mês, no dia 30, Dia de São Marçal, os brincantes amanhecem no bairro de João Paulo para celebrar o drama de Pai Francisco e Mãe Catirina, protagonistas da lenda da morte e ressurreição do boi. Tradicionalmente, os brincantes encenavam o drama durante cerca de três horas. Com o passar dos anos, o tempo de duração do auto foi sendo reduzido, contudo ainda permanecem as toadas acompanhadas da ‘‘tropeada’’ dos instrumentos musicais. Também ainda costuma-se observar o arremedo (espécie de paródia) de aproximadamente 10 minutos. Mesmo com a redução do espetáculo, a apresentação conta com todos os personagens originais da narrativa, além dos protagonistas.

mockup