Buenos Aires é aqui
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domingo, 08 de fevereiro de 2009
Denise Ribeiro<br> Equipe da Folha 
Diferente de poucos anos atrás quando apenas quem podia ir a Buenos Aires tinha a chance de tomar contato direto com a cultura do país vizinho, hoje, a exemplo da recente estreia nos cinemas locais do filme ''Café dos Maestros'', sobre as tradicionais orquestras de tango, quem vive em Curitiba não precisa mais ir longe para apreciar música, dança ou sabores da cultura argentina. Aqui mesmo, na capital paranaense há opções diversas de locais onde se pode apreciar um alfajor ou uma empanada, tomar um café submarino (aquele com uma pequena barra de chocolate mergulhada), se fartar com uma parrillada ao som do bandoneon e até dançar tango numa autêntica milonga.
Público para todas essas novidades não falta. No ano passado, a segunda edição do Curitiba Tango Festival reuniu 1,8 mil pessoas em uma única noite de espetáculo do Teatro Guaíra. O festival, realizado sempre no mês de junho, também contou com uma média de 120 pessoas por noite nas milongas (nome dado aos bailes em que se dança o tango ao som das tradicionais orquestras) e cerca de 60 alunos por turma nas oficinas gratuitas distribuídas por espaços como praças, parques e shoppings da cidade, segundo a organizadora, Gisel Durán. O Curitiba Tango Festival tem o apoio do Governo de Buenos Aires e é certificado pela Chancelaria Argentina.
Os números do festival representam um interesse que se manifesta ao longo de todo o ano. Nas milongas realizadas nos finais de semana no Café Dominguez, por exemplo, comparecem entre 60 e 80 pessoas por noite, segundo Gisel Durán, que também é proprietária do Café. Bailarina profissional de tango durante 18 anos, a argentina Gisel foi co-fundadora da Universidade de Tango, em Buenos Aires, e agora ensina aos brasileiros não apenas passos de dança, mas toda a cultura relacionada a essa expressão artística típica da capital argentina. ''Ensinamos a parte cultural para que o aluno que vem aqui saia instruído para saber se comportar em milongas como as que acontecem lá'', justifica a professora.
Com as milongas realizadas aqui, Gisel quer mostrar que o tango é uma dança popular e que não é preciso fazer acrobacias, como as apresentadas nos palcos, para dançar no salão. ''Aqui o pessoal ainda consome uma coisa que não é tango, tem muito palco, muita acrobacia que não condiz com o que se tenta preservar em Buenos Aires, que é a raiz do tango'', explica. De acordo com a professora, mesmo na Argentina o tango de palco foi o responsável por resgatar essa cultura que entre os anos 50 e 80 ficou um pouco de lado, sendo preservada apenas pelos milongueiros mais apaixonados. Somente quando o tango virou atração da Broadway, há cerca de 20 anos, é que se começou a pensar no resgate dessa cultura. ''É muito mais fácil vender um show que uma cultura, mas com o tempo se voltou às raízes que é o que está acontecendo hoje em dia'', completa Gisel.
O filme ''Café dos Maestros'', citado no início do texto, é uma dessas iniciativas de preservar a memória do tango. Documentário de Miguel Kohan, produzido por Lita Stantic, Gustavo Santaolalla e pelo brasileiro Walter Salles, o filme reúne intérpretes, músicos e maestros das tradicionais orquestras de tango que até hoje dão o ritmo das milongas na capital argentina. O resultado é o registro do encontro de artistas com idades entre 70 e 95 anos, que aceitaram o convite para reconstruir arranjos musicais históricos e gravar materiais inéditos, o que culminou com uma grande apresentação no Teatro Colón.


