Na manhã de 11 de setembro de 1973, o exército chileno, com o apoio de uma esquadra aérea e marítima dos EUA, iniciou um dos mais violentos golpes de Estado realizados na América Latina. Encabeçada pelo general Augusto Pinochet, a ação militar fez com que o presidente Salvador Allende fosse deposto, e seus partidários, presos. Relatando um dos efeitos colaterais deste golpe, o filme ''Dawson - Ilha 10'' - estreia desta semana na programação do Cine Com-Tour/UEL - acompanha o destino dos ministros e das autoridades do governo de Allende, encaminhados a um campo de prisioneiros em uma pequena, e gelada, ilha no sul do Chile.
Baseado em relatos reais do ex-Ministro de Mineração Sergio Bitar (Benjamin Vicuna) - que como prisioneiro é identificado pelo codinome ''Ilha 10'' - o filme começa com uma coletiva de imprensa no final do período de enclausuramento e, a partir deste ponto, a história passa a ser contada através de um longo flashback. Dessa forma é que somos lentamente introduzidos à rotina dos prisioneiros dentro do isolamento da ilha, que se resume a muitos dias de trabalhos forçados e condições precárias.
Dirigido pelo veterano cineasta chileno Miguel Littin - famoso pelos seus filmes 'politizados' - a bela fotografia saturada do longa serve para destacar o frio e a solidão opressora do local. Além disso, as cenas movimentadas com 'câmera na mão' são realizadas perfeitamente, retratando a confusão dos aprisionados diante dessa nova realidade. A direção de Arte também ganha pontos pela sua perfeita montagem de cenários, especialmente na do apertado alojamento de prisioneiros.
Apesar de ser tecnicamente bem realizado, existem muitas falhas no roteiro e no modo como a narrativa de ''Dawson'' é desenvolvida. Os inconstantes flashbacks (misturando cenas reais com atuações filmadas em preto-e-branco) e a narrativa em 'off' enfraquecem as cenas, muitas vezes quebrando o ritmo do filme e pontuando o óbvio. As frases soltas dos prisioneiros se resumem aos clichês: ''Deus esqueceu essa ilha'' e ''O que fizemos para merecer tanta violência?'', e isto também descaracteriza a força proporcionada pelo cenário realista.
Mesmo baseado em um relato individual, o roteiro do longa privilegia um plano geral da vida dos - muitos - capturados. Por essa razão, não conseguimos nunca nos relacionar emocionalmente com nenhum dos protagonistas centrais; um médico (Horacio Videla) e um filho acompanhado por seu velho pai (Jose Martin e Matias Vega) são destaques passageiros no filme, e é uma pena não terem sido explorados com mais cuidado pelo roteiro.
Apesar da ótima fotografia e de alguns planos de câmera muito inspirados, a impressão que fica é a de que o filme ''Dawson - Ilha 10'' tem uma história com ótimo potencial, mas que foi irremediavelmente afetada por uma descarada propaganda ideológica, vendida através de um roteiro mediano e de personagens pouco convincentes.

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