Bruxaria: obra da literatura
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de dezembro de 2018
Célia Musilli <br> Editora da Folha 2 
Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920 e faleceu um dia antes da data do seu aniversário, em 9 de dezembro de 1977. A coincidência das datas dá à biografia de Clarice mais uma nuance do enigma que permeia sua literatura. Associada à magia, a autora chegou a ser convidada para um congresso de bruxaria em Bogotá, em 1975, porque viam em sua obra uma configuração mística. No congresso ela não falou de magia, mas de literatura, corroborando a ideia de Otto Lara Rezende que acerca de sua obra declarou: "Não se trata de literatura, mas de bruxaria."

A autora inspirava esse conceito porque seus livros levam o leitor a outros planos de linguagem, fogem ao senso comum, extrapolam padrões e deságuam num terreno poético que dá margens aos "mistérios de Clarice."
O livro póstumo "Um Sopro de Vida - Pulsações", lançado em 1978, um ano depois de sua morte, tem um narrador que anuncia em suas primeiras páginas: "Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos."
Ao escrever neste limiar entre a vida e a morte, demonstrando a intensidade de uma experiência pessoal, a autora adota a literatura como um vaticínio:"Minha vida me quer escritor e então escrevo. Não é por escolha: é íntima voz de comando."
"Um Sopro de Vida - Pulsações" começou a ser escrito em 1974. Quando Clarice morreu, era um amontoado de fragmentos soltos que foram organizados por Olga Borelli, secretária e amiga da autora. No livro, a personagem Ângela Prandini prevê: "Este ao que suponho será um livro aparentemente feito por destroços de livro."
Coincidências, previsões, mistérios. Iluminações de uma autora que, à maneira de William Blake, parecia abrir portas para outras dimensões. Iluminações que marcam sua obra na condição das epifanias de suas personagens, no insight de ver o mistério se abrir e a clareza das coisas surgir como um raio que enfim faz desabrochar o oculto através da palavra.
"Um Sopro de Vida" conta com um personagem chamado Autor que cria a personagem Ângela Prandini, assim o livro se alterna como dois diários. Num determinado momento, o Autor chega à conclusão de que precisa "criar as próprias realidades." O que parece a medida da compreensão de Clarice Lispector sobre a criação literária: uma criação de mundos, como uma deusa hindu que navega por dimensões variadas, ao contrário da compreensão de uma realidade linear, tangível e comum a todos. A criação como ato exploratório, o autor como um viajante que liga os mundos, conectando-se a outras realidades. A autora de múltiplas narrativas abre novos sentidos. Literatura com o mistério que deixa ao leitor a sensação de um livro inacabado como "Um Sopro de Vida", no qual a personagem sobrepõe-se ao Autor subjugando-o. Porque o 'sopro de vida' tem autonomia e seu destino é incontrolável no mundo real e na literatura.
A última entrevista de Clarice foi dada ao repórter Júlio Lerner, da TV Cultura, em 1977. Ela pediu que a entrevista só fosse ao ar depois de sua morte, o que aconteceu dez meses depois. Na entrevista há respostas e pausas, prolongamentos e sínteses. Lembra a respiração de alguém se despedindo. E estava mesmo, prevendo ou anunciando a morte próxima usando palavras ou apenas o silêncio. Porque nela o fim era silêncio. Mais um mistério de Clarice que fez da palavra vida, a ponto de dizer "quando não escrevo estou morta". E que grande vitalidade há nesta frase dita por uma autora que tudo sabia da escrita que para ela era um sopro, desses que se perpetuam como bruxaria: obra da literatura.


