Bruno Barreto prepara filme sobre perdas
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quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Roberta Pennafort <br> <br> Agência Estado 
Rio de Janeiro - Tarde em Copacabana. Numa ruazinha transversal à praia, quatro carros dos anos 50 enfileirados junto à calçada chamam a atenção para um prédio de fachada art déco. Quem passa saca o celular para fotografar os automóveis, todos muito bem conservados. Da janela, velhinhas observam o vaivém de técnicos, produtores e figurantes.
O frisson aumenta quando Glória Pires sai de um dos dois trailers camarins estacionados logo adiante. Cabelos em coque, conjunto safári creme e lenço no pescoço, ela está vestida de Lota de Macedo Soares (1910-1967), arquiteta protagonista, com a (1911-1979), do novo filme de Bruno Barreto, 95% falado em inglês, o idioma entre as duas.
O título atual é ''Flores Raras'', mas o diretor preferia ''A Arte de Perder''. Ambos são extraídos de poemas da escritora, que veio ao Brasil a turismo em 1951 para passar poucos dias e acabou vivendo por aqui 15 anos de amor - entre Rio, Petrópolis e Ouro Preto, que viraram locações do filme.
''As pessoas acham que ninguém vai querer ver um filme sobre perda. Espero que consiga convencer os distribuidores'', conta Bruno, para quem ''Flores Raras'' remete a livros de botânica. ''Acho que todo mundo lida com perdas. Essa é a questão central do filme, não estamos fazendo uma cinebiografia.''
A ideia é fazer com que as fragilidades das duas personagens fiquem nítidas na tela. Quando se conhecem, em Nova York, Lota, vivida pela atriz australiana Miranda Otto, é a centrada, extrovertida, empreendedora, provedora, controladora. Mas a mulher que projetaria o Parque do Flamengo, obra fundamental na história urbana do Rio, acaba perdendo a saúde (tem uma arteriosclerose precoce), a sanidade e a vida (se mata em 1967, já sem seu amor).
Por outro lado, Elizabeth, alcoólatra, frágil, tímida, de trajetória errante pelo mundo e bagagem familiar pesada (perdeu o pai criança, a mãe foi internada num manicômio), ela, sim, uma suicida em potencial, sobrevive por conseguir lidar melhor com suas dores, na leitura do diretor. É no Brasil, com Lota, que ela vive pela primeira vez na vida uma certa estabilidade emocional e financeira.
''As duas eram de personalidade muito forte e complementar, e tinham uma vida reservada. Lota não usufruiu da celebrização que adquiriu com o Parque do Flamengo, porque, pelo fato de ser homossexual, queria ter a sua privacidade'', avalia Glória, que se enterneceu pelo papel quando filmava ''O Quatrilho'' (1994), de Fábio Barreto, irmão de Bruno. Bastou ler ''Flores Raras e Banalíssimas'' (Rocco), de Carmen de Oliveira, sobre o casal.
A produtora Lucy Barreto, mãe dos dois, comprou os direitos sobre o livro em 1997. De lá para cá, foram muitas as dificuldades para se conseguir patrocínio. Até este momento, por conta da questão homossexual, não apareceram muitos interessados, apesar de se tratar de um diretor de filme indicado para o Oscar (''O Que É Isso, Companheiro?'', de 1997) e dono da segunda maior bilheteria do cinema brasileiro (''Dona Flor e Seus Dois Maridos'', de 1978), e de uma atriz que levou 10 milhões de pessoas aos cinemas com os dois ''Se Eu Fosse Você''.


