Desafinado. Como o nome da música de Tom Jobim que se tornou um dos símbolos da bossa nova. Assim é o casal protagonista do novo filme do diretor Bruno Barreto, também chamado ‘‘Bossa Nova’’, com lançamento previsto para o segundo semestre de 99.
A personagem Miss Simpson, que será vivida pela mulher do diretor, a atriz norte-americana Amy Irving, e Pedro Paulo, interpretado por Antônio Fagundes, são desafinados com o tempo em que vivem. ‘‘O filme fala sobre duas pessoas anacrônicas. Miss Simpson e Pedro Paulo vivem como se estivessem no passado. Não foram atingidos pela modernidade, por isso são muito românticos’’, contou Barreto, que começará a rodar o filme no dia 27 de outubro.
A história se passa nos anos 90, mas o cenário em que o casal se encaixa é, segundo Barreto, o do Rio dos anos 60, época enfocada no filme. ‘‘Tempo em que era possível imaginar alguém cantando, como fez Jobim: ‘Fotografei você na minha Rolleyflex... Isto é bossa nova, isto é muito natural’’’, contou e cantou Barreto.
Miss Simpson é uma americana típica dos anos 60. Foi hippie, virou aeromoça, casou-se com um piloto brasileiro e veio morar no Rio. Seu marido morreu há dois anos, nadando no Arpoador, onde ela mora. ‘‘Não é à toa. Nada mais bossa nova do que o Arpoador’’, diz Barreto. Desde então, ela não se interessou por mais ninguém.
Até conhecer Pedro Paulo, advogado, filho de um alfaiate argentino, que acabou de ser deixado pela mulher por causa de um professor de tai-chi-chuan.
‘‘Quis fazer um filme sobre encontros e desencontros, sobre o amor. O mundo moderno é cruel e abrupto. Apesar disso, acredito que ainda há espaço para o romantismo’’, disse Barreto.
O filme, explica, se chama ‘‘Bossa Nova’’ porque é a única música que consegue ser nostálgica e moderna ao mesmo tempo. Por isso é dedicado a Tom Jobim.
Barreto ainda oferece o filme ao cineasta francês François Truffaut, pois ‘‘ninguém mais que ele, com sua obra terna, irônica e nostálgica, soube falar do amor’’.
O ponto de partida para o roteiro, de Alexandre Machado e Fernanda Young, foi o livro ‘‘Senhorita Simpson’’, de Sérgio Sant’Anna. A idéia foi de Arnaldo Jabor, o primeiro a imaginar Amy como Miss Simpson. O resultado final, uma comédia romântica, faz a atriz considerar esse filme como ‘‘algo diferente de tudo que já fez’’.
Amy começou no teatro em 70, no circuito Off-Broadway, chegou ao cinema como a mulher de Mozart em ‘‘Amadeus’’ (1984), passou pela televisão na série americana ‘‘Anastasia: The Mystery of Anna’’ (1986) e até fez a voz de Jessica, no desenho animado ‘‘Uma Cilada para Roger Rabbit’’ (1988). ‘‘Quando vim ao Rio pela primeira vez, em 1989, senti como se a temperatura de meu corpo tivesse aumentado, meus sentidos tivessem ficado mais apurados. Agora, vou poder transportar para a tela todas as emoções que este país, em especial o Rio, despertam em mim.’’
‘‘Bossa Nova’’ começa a ser produzido já com sua distribuição internacional garantida.
Pela primeira vez, segundo o diretor Bruno Barreto, uma companhia estrangeira, a Sony Pictures Classics (pertencente ao grupo Sony Columbia), comprou a distribuição para todo o mundo de um filme que ainda está no papel. Por conta disso, a empresa está arcando com 60% do orçamento de ‘‘Bossa Nova’’, cujo custo total é de US$ 5 milhões.
Nada a ver, de acordo com Barreto, com qualquer expectativa de que o filme seja indicado para o Oscar. Ele é categórico ao afirmar que não tem nenhuma intenção nesse sentido. Está ‘‘fazendo um filme que gostaria de ver’’, sem se ‘‘preocupar com sua carreira internacional’’ - preocupação que assume ter existido com ‘‘O Que É Isso, Companheiro?’’, indicado este ano para melhor filme estrangeiro. ‘‘Estou fazendo esse filme porque sou uma pessoa romântica, gosto de lembrar do Rio da bossa nova.’’

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