Bruno Barreto na expectativa do Oscar
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terça-feira, 10 de março de 1998
Guto Barra Planet Pop-AE 
ReproduçãoBruno Barreto: Só agora, que o filme está fazendo sucesso fora do País, é que as pessoas começam a dar valorO Brasil tem este ano boas chances de levar o Oscar de melhor filme estrangeiro. O Que É Isso, Companheiro?, a produção de Bruno Barreto baseada no livro de Fernando Gabeira, é o único dos concorrentes que está em cartaz nos Estados Unidos. O filme, distribuído pela Miramax - o estúdio nova-iorquino preferido dos diretores independentes -, está sendo exibido em mais de 50 cidades dos Estados Unidos e também na Itália, Alemanha e Inglaterra.
A presença da produção em tantos mercados simultaneamente vem atraindo atenção inédita para um cineasta brasileiro. Barreto, que ganhou destaque nos Estados Unidos por conta de produções como Atos de Amor, feita em 1995 com um estúdio de Hollywood e estrelado por Dennis Hopper, vem tendo uma exposição que nenhum outro diretor nacional experimentou nos últimos anos.
Ele faz questão de ressaltar que não existe um lobby para que o filme ganhe o Oscar. O filme está concorrendo porque é bom; é chato que eu tenha que dizer isso, mas não há como obrigar ninguém a gostar do filme, disse o diretor por telefone, de Roma. Para um filme ganhar uma das cinco vagas na categoria, ele tem de ser escolhido por um júri de 300 pessoas. Para o prêmio em si, os mais de 5 mil membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas podem votar.
O que acontece é que para o Oscar de melhor filme estrangeiro cada um deles tem que votar pelo telefone depois de ter assistido a todas as produções concorrentes. A decisão acaba ficando nas mãos de cerca de mil membros. O que É Isso, Companheiro? concorre no dia 23 com Beyond Silence, da Alemanha, Character, da Holanda, Secrets of the Heart, da Espanha, e The Thief, da Rússia.
Barreto, que se mudou para os Estados Unidos depois de rodar O Romance da Empregada, em 1988, considera a exposição que seu novo filme vem tendo no mercado internacional boa não só para o cinema brasileiro, mas também para a imagem do país. Várias pessoas me perguntaram como é que o governo deixou você fazer esse filme?, diz. Muita gente no mundo inteiro acha que o Brasil não evoluiu; o governo brasileiro não faz um trabalho bom de divulgação de imagem e eles também não percebem o quanto o cinema ajuda nesse aspecto.
A produção - sua primeira brasileira em sete anos - se destaca por trazer elementos de thrillers norte-americanos sem perder sua personalidade carioca. Eu usei o gênero thriller, não me deixei ser usado por ele, diz. A música, por exemplo, nunca é usada para sublinhar o suspense, mas para marcar os momentos de emoção. A trilha sonora foi composta por Stewart Copeland, ex-integrante do The Police.
O currículo de Barreto reúne uma série de produções elogiadas no mercado internacional. Além de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 1977 - filme que só perdeu para Tubarão em termos de bilheteria no Brasil na época -, ele se destacou com Gabriela, que reuniu Marcello Mastroianni com Sônia Braga, e O Romance da Empregada, com Betty Faria. Em 1989, ele mudou-se para Los Angeles, onde dirigiu Assassinato Sob Duas Bandeiras, com Robert Duvall, Andy Garcia, Kevin Spacey e Lou Diamont Phillips.
Foi durante as filmagens desta produção que ele conheceu Amy Irving, ex-mulher de Steven Spielberg e atriz de filmes como Carrie, a Estranha e A Competição, com quem vive atualmente em Nova York. O filme não foi um sucesso comercial, mas a carreira dele nos Estados Unidos continuou ganhando força, com produções como O Coração da Justiça e One Tough Cop.
Em 1995, Barreto voltou a trabalhar com Amy em Atos de Amor, baseado no romance Farmer, de Jim Harrison, autor de Lendas da Paixão. O filme, com Dennis Hopper no papel principal, foi elogiado no Festival de Sundance, em 1996, e por nomes como Steven Spielberg, Robert Altman e Jack Nicholson. Foi o passo decisivo para alavancar a produção de O Que É Isso, Companheiro?.
Filmar a história do sequestro do embaixador Charles Elbrick pelos integrantes do MR-8 em 1969 era uma vontade que o diretor tinha desde antes de deixar o Brasil. O tema polêmico dificultou o financiamento da produção. No Brasil as elites dirigentes são muito reacionárias, as pessoas ficavam com medo de se associar a um assunto como esse, diz. Só agora, que o filme está fazendo sucesso fora do País, é que as pessoas começam a dar valor.
O Que É Isso, Companheiro? é o segundo filme produzido pela família Barreto a concorrer ao Oscar em três anos. O Quatrilho, dirigido por Fábio Barreto, irmão de Bruno, representou o Brasil em 1996. Acho que é apenas uma coincidência, O Quatrilho não tem nada a ver com o Companheiro, nem em termos de estética nem de conteúdo. Mais do que abocanhar a premiação, o diretor considera importante o Brasil estar falando de seus erros. Já é possível que a gente fale sobre nossas mazelas, diz. Isso mostra uma evolução política para o mercado internacional.


