Brincar para alfabetizar
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segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 


Não é raro, hoje, que, desde a primeira infância, crianças tenham contato com aparelhos eletrônicos. Mais do que nunca, tablets, celulares, aplicativos e jogos virtuais fazem parte do universo infantil. Tanto que os pequenos mexem e usam com uma intimidade e facilidade de causar espanto nos mais velhos. Se este é um caminho sem volta, os excessos do uso da tecnologia, no entanto, já causam preocupação. Muito se fala dos problemas decorrentes como obesidade, exclusão social e vulnerabilidade digital, além do aparecimento de lesões nos membros ou dores posturais. Um assunto, porém, que está sendo discutido é de como o uso em demasia nesta idade, sobretudo nos anos iniciais, pode afetar de maneira drástica o processo de alfabetização.
A educadora canadense Donna Ward, especializada em Educação Básica e Educação Física, que está em Londrina promovendo o treinamento das professoras da escola bilíngue Maple Bear Canadian School, atenta para a necessidade do estímulo às atividades como correr, jogar bola, pular, escalar e todos os tipos de brincadeiras, sobretudo ao ar livre, essenciais para o desenvolvimento da coordenação motora grossa que vai garantir, em seguida, o estabelecimento da coordenação motora fina. "Nessa idade até os cinco anos - é que as crianças precisam desenvolver e fortalecer a musculatura dos braços e pernas, diretamente ligados à habilidade de ler e escrever. Quanto mais cedo iniciarem, melhor." Tais ações são necessárias porque as crianças devem ser aptas a executarem as ações de forma suave e usando os dois lados do corpo ao mesmo tempo.
Se não houver treinamento no tempo adequado, segundo ela, a fase seguinte ficará comprometida. Portanto, mais do que brincar para a socialização e integração, atividades corriqueiras são necessárias para que as crianças possam realizar movimentos, aparentemente, simples como segurar um lápis, cortar com tesoura e movimento de leitura. "Se as crianças gastam seu tempo somente em tablets e celulares, acabam ficando com toda a musculatura fraca. Isso compromete diretamente no processo de alfabetização e letramento, ou seja, as crianças vão apresentar muitas dificuldades na aprendizagem. Além disso, as atividades físicas auxiliam na concentração necessária nesse processo. Então, tudo pode ser evitado de maneira simples e barata, sem grandes investimentos financeiros", complementa a educadora.
Com um olhar apurado, Donna passou dias observando as atividades realizadas pela equipe pedagógica da escola a fim de trazer ainda mais alternativas para o melhor desenvolvimento das crianças. "Quando se fala em brincar, muitos professores pensam em soltar os alunos ao ar livre e deixá-los à vontade. Brincar, hoje, não é mais tão natural quanto muitos imaginam. Por isso, grande parte das crianças precisam ser estimuladas o tempo todo. Porém, mais que isso, devem ser orientadas, mas sem que percebam. Nesse sentido, os professores também precisam ser encorajados a inserir mais atividades na rotina das aulas no ambiente interno. Um simples caminhar de um lado ao outro da sala enquanto leem um texto, levantar da cadeira e pular enquanto contam os números na aula de Matemática podem trazer muitos ganhos."

ATIVIDADES
Na escola, professoras das turmas de Educação Infantil e primeiros anos do Fundamental têm sido incentivadas a promoverem atividades físicas para reforçarem o processo de alfabetização. As crianças são levadas para fora da sala de aula onde podem explorar o jardim, o playground e até mesmo escalar árvores usando cordas, bem como brincadeiras populares. Todas as atividades visam prepará-los para a missão de ler, escrever e fazer contas. "A todo momento estão sendo orientados estrategicamente, ainda que pensem que estão brincando despretensiosamente. Além de fortalecerem a musculatura, ganham autonomia e confiança com o êxito das atividades. O movimento também ajuda a liberar energia a partir de fortes emoções, como a raiva e frustração", explica, pontuando os ganhos físicos, sociais, emocionais, cognitivos e de linguagem.
Apesar de a melhor maneira ser uma exploração em ambientes sensoriais ao ar livre, a educadora diz que, concomitantemente, é importante realizar atividades tradicionais que preparam a coordenação motora fina para uma alfabetização mais tranquila e eficiente, como pegar pedaços de papel com a ponta dos dedos fazendo o movimento de pinça, colar, encaixar, fazer movimentos com massinha pedagógica. "A tecnologia não é vilã, mas estamos vivendo um momento de olhar para trás e nos apegarmos ao que era naturalmente realizado. As crianças de agora possuem um perfil mais ativo, não ficam o tempo todo concentradas e paradas. Por isso, é preciso ter muita criatividade para que permaneçam interessadas. O bom é que as crianças adoram tentar o que não conhecem, então, é importante promover desafios constantemente."


